Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Aos quarenta anos, a Isabel dos Santos é a única mulher africana milionária e a mais nova do continente, com uma fortuna de três mil milhões de dólares, dispersa por interesses na banca, no cimento, nos diamantes e nas telecomunicações, mais de metade dos quais são de empresas portuguesas.

O governo angolano apresenta a sua como uma história de sucesso e motivo de orgulho nacional. A real história passa, porém, pela protecção paterna (a Isabel dos Santos é a filha mais velha do presidente de Angola, José Eduardo dos Santos): todos os grandes investimentos angolanos da Isabel passam por exigir uma participação em qualquer empresa que pretenda investir no país, ou em decretos presidenciais que, duma forma ou doutra, a envolvem. Faz sentido: se o presidente for deposto, tem acesso, através da filha, à riqueza que roubou ao seu país; se morrer no poder, a riqueza permanece na família.

Logo após a independência de Angola, em 1975, o país mergulhou numa guerra civil, que terminou 27 anos depois; entretanto, o actual presidente assumiu o poder em 1979, sendo actualmente o terceiro chefe de Estado não monárquico mais duradouro. A sua filha Isabel nascei no Azerbaijão, quando o presidente José Eduardo dos Santos aí estudava, mas mudou-se para o palácio presidencial aos seis anos, por entre luxos como árvores de Natal importadas de Nova Iorque e decorações no valor de $500.000 importadas de Lisboa. Nos anos 1980, a economia angolana colapsou, devido à guerra civil, mas a filha do presidente pôde estudar Engenharia no King’s College, em Londres, tendo regressado ao país em 1992. Com o fim da guerra civil, em 2002, a economia angolana cresceu à média de 11,6 % e o orçamento de Estado decuplicou, mas pouco desse progresso chegou à população, 70 % da qual continua a viver com menos de $2 por dia e 10 % passa fome.

Então, para onde vai o dinheiro? A segurança do Estado gasta mais do que a saúde, a educação e a agricultura juntas; e uma grande parte desaparece e reaparece nos bolsos da Isabel dos Santos.

O percurso da Isabel dos Santos nos negócios começou com um bar chamado Miami Beach. Em 1997, o proprietário, Rui Barata, viu-se em maus lençóis com as autoridades de saúde e o fisco. A sua solução foi dar sociedade à filha do presidente, contra um investimento mínimo, mas um nome grande, que afastou os inspectores e os fiscais e fez o bar prosperar até aos dias de hoje. A lição estava aprendida: um nome abre muitas portas.

Ao Miami Beach, seguiram-se os diamantes. A exploração das minas de diamantes é um exclusivo da Endiama, empresa pública que estabeleceu, em 1999, uma parceria com três mercadores de diamantes israelitas e um traficante de armas russo. O novo conglomerado pertence ao Estado angolano, aos parceiros israelitas e ao russo, e à Isabel dos Santos, com 24,5 % do capital, um negócio aprovado pelo conselho de ministros angolano. Entretanto, essa participação passou para a mãe da Isabel dos Santos, cidadã britânica, à margem de qualquer suspeita relativamente ao comércio de diamantes de sangue.

Seguiram-se as telecomunicações. Em 1997, o presidente José Eduardo dos Santos lançou um concurso público para licenças de telecomunicações. Dois anos depois, o presidente mudou de ideias, anulou o concurso e atribuiu à Unitel — de que a filha detinha 25 % do capital — o direito de ser o primeiro operador móvel em Angola.

Para chegar à banca, a Isabel dos Santos contou com a ajuda do português Américo Amorim e a autorização do pai, na qualidade de presidente do conselho de ministros, para abrir o Banco Internacional de Crédito, ficando com outros 25 % do capital do banco. O BIC foi um sucesso, sobretudo graças aos empréstimos ao Estado angolano, no valor de $450 milhões.

O petróleo é o maior recurso natural de Angola. A Sonangol, propriedade do Estado angolano, aliou-se ao Américo Amorim, que, em 2005, criou a Amorim Energia, a qual comprou a Galp em 2006. Pela mesma altura, parte da participação da Sonangol na Amorim Energia passou para uma empresa suíça, que se pensa estar ligada à Isabel dos Santos

Em 2004, a única cimenteira angolana era a Nova Cimangola, detida pelo Estado angolano, (39,8 %), a Sonangol (9,5 %) e 49 % em processo de aquisição pela Cimpor. O governo angolano, alegando a importância estratégica do cimento para a reconstrução do país, suplantou a oferta da Cimpor e adquiriu esses 49 % do capital, mediante um empréstimo do BIC. Paralelamente, a Isabel dos Santos, mais uma vez em parceria com o Américo Amorim, criou a Ciminvest, que viria a controla a Nova Cimangola, num processo mal explicado. O Américo Amorim vendeu, mais tarde, a sua parte, deixando a Nova Cimangola nas mãos da Ciminvest e esta nas mãos da Isabel dos Santos.

As participações da Isabel dos Santos são mais do que poupanças para tempos difíceis; são investimentos que produzem elevados dividendos, os quais lhe permitem adquirir mais e mais empresas, agora já não relacionadas com a exploração dos recursos angolanos, tais como a Zon. Entretanto, o pai tomou medidas para se proteger das consequências legais da sua pilhagem, alterando a lei angolana de modo a permitir-lhe prosseguir impune. Mas a protecção mais importante passa por retratar a filha Isabel como uma heroína, que enche o seu país de orgulho com o sucesso dos seus negócios. Mas a verdade é que os Angolanos deveriam estar mortificados, não orgulhosos.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original, publicado na revista «Forbes» [1].

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