Por Gustavo Martins-Coelho

Eu sou um navegante interestelar da vida. Passeio entre mundos, jamais permanecendo no mesmo mais do que o tempo necessário para conhecer a teoria das leis físicas que o regem. Mas não as passo à prática.

Talvez por isso, seja um pouco menos intolerante. Certamente, esforço-me por não morrer estúpido, o que me leva a praticar as maiores estupidezes.

Mas, talvez também por isso, seja um pouco mais intolerado. Todos procuram as suas almas gémeas; e ninguém a encontra em mim. Para se ser gemelar, não se pode visitar todos os mundos. Para se ser gemelar, tem de se conhecer a teoria e executar a prática de todas as leis físicas que regem o mundo das almas gémeas. Só desse mundo. Para se ser gemelar, tem de se ser pedreiro dos muros que prendem os navegantes interestelares.

Eu sou o que fica atrás do muro. Eu sou o que é colocado de quarentena. Eu sou o que chega e desperta a indiferença e o desinteresse.

Sou estranho. Trago comigo bocados de planetas por onde passei. Nuns fui feliz, noutros chorei, mas em nenhum me senti em casa. Quando chego, olham-me de lado. Dizem que não sou um deles, que não conheço as leis da física. Mas as leis da física diferem, de planeta para planeta. A gravidade varia com a massa. Ninguém sabe se a velocidade da luz é constante e inultrapassável. E ninguém parece importar-se em dedicar umas aulas de física a este viajante interestelar. Todos parecem contentar-se em olhar-me à distância. Alguns examinam-me com os seus microscópios defeituosos, mas não durante muito tempo. Rapidamente, regressam à sua física e deixam de parte a minha metafísica. E eu tolero tudo isto e fico a observar e derivo as minhas próprias leis.

O estranho sou eu. Mas os intolerantes são eles!

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