Por Gustavo Martins-Coelho [a]

O Serviço Nacional de Saúde britânico é um exemplo de acesso universal a cuidados de saúde gratuitos no ponto de acesso e é visto como um direito humano fundamental. Simultaneamente, muitos países procuram imitá-lo, enquanto outros vão desmantelando os seus, em resposta à actual crise financeira.

No entanto, o actual governo de coligação vê o SNS britânico como uma empresa em apuros, uma forma cínica e astuta de abdicar da sua responsabilidade em garantir um sistema de saúde que ponha o doente e a segurança no topo das prioridades. Pelo contrário, espera que o sistema seja eficiente, reduza os custos e tenha sucesso financeiro, sob pena de ser considerado uma empresa falida, responsabilizando os profissionais de saúde pela qualidade dos cuidados que prestam dentro das restrições que lhes são impostas. E a comunicação britânica vai atrás. Entretanto, a nova Lei de Saúde e Assistência Social passou o dever de fornecer serviços de saúde gerais e universais do Secretário de Estado da Saúde para um sistema complexo de organizações, cujas responsabilidades exactas são, na melhor das hipóteses, de difícil compreensão e, na pior, deliberadamente nebulosas.

Após alguns escândalos e a elevada mortalidade observada nalguns hospitais, que são meros sintomas das falhas do sistema, a qualidade dos cuidados de saúde entrou na agenda. Mas ainda não está acima de todos os outros objectivos do sistema; e a atribuição de culpas continua a ser uma estratégia de promoção da qualidade… Os indicadores e os objectivos quantitativos têm um papel importante, mas só após a adequação dos sistemas, dos procedimentos, das condições, do ambiente e das limitações que os profissionais de saúde enfrentam diariamente, a começar pelo seu número.

Surpreendentemente, não é requisito, para se chefiar o Serviço Nacional de Saúde britânico, ter conhecimentos ou experiência na área dos cuidados de saúde. Contudo, só uma pessoa de calibre, paixão, experiência e sabedoria conseguirá desviar o actual caminho do Serviço Nacional de Saúde britânico em direcção ao mercado para dar prioridade máxima a um sistema compassivo, gratuito, equitativo e efectivo, que coloque a saúde, o bem-estar e a dignidade dos doentes em primeiro lugar.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original, publicado na revista «The Lancet» [1].

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