Por Jarrett Walker [a]

Sempre que eu falo sobre a vantagem das redes em grelha, como já fiz aqui [2], há sempre alguém que diz:

— Mas a minha cidade não é uma grelha!

Por exemplo, Sydney, onde vivi, é uma das cidades com menos ruas em grelha que existem. Na verdade, não há qualquer ordem sistemática na rede viária de Sydney. Algumas ruas seguem o que foram percursos aborígenes, mas a maioria cresceu aos poucos, a acreção de milhões de decisões de curto prazo.

2015081300Um dos maiores problemas de Sydney é que a rede viária está tão focada no centro financeiro e comercial da cidade (centro–topo, nesta imagem), que o trânsito é forçado a atravessar o centro, mesmo que não queira lá ir. Mas o problema é muito, muito pior, no caso dos passageiros do transporte colectivo. Como parte do estudo do Sydney Morning Herald, já discutido aqui [3], eu fiz uma revisão rápida da rede de autocarros do centro da cidade, procurando o padrão de serviço frequente — linhas que passam a cada quinze minutos ou menos durante todo o dia. A rede frequente é a parte da rede em que o passageiro não precisa de se preocupar com horário e, portanto, o transporte colectivo pode ser usado com algum sentimento de espontaneidade e de liberdade. Que eu saiba, ninguém antes tinha desenhado um mapa da rede frequente do centro de Sydney. Ele acabou por ter este aspecto:

2015081301Se o leitor quiser deslocar-se espontaneamente no centro de Sydney — onde a densidade  é mais elevada, os obstáculos à condução são maiores, e os estilos de vida sem carro devem ser mais atractivos — a rede forçá-lo-á a atravessar o centro financeiro (o encaixe amarelo na extremidade norte do map). Em todo o centro da cidade de Sydney, existe apenas uma linha de cintura frequente — que passa perpendicularmente às linhas radiais, como o elemento circular duma teia de aranha. Destaquei-a a amarelo. Por outro lado, a maioria das grandes cidades norte-americanas e europeias tem toda uma rede destes serviços de cintura, que, muitas vezes, são as linhas mais produtivas na rede, em termos de número de passageiros por unidade de custo operacional.

Também como parte do estudo que já referi, esbocei um mapa que serve de pequena amostra do aspecto que poderá ter uma rede frequente em grelha no centro da cidade de Sydney. Não é uma proposta, apenas um possível ponto de partida para se pensar uma proposta final. Mas, se o leitor não consegue imaginar uma rede em grelha numa cidade sem uma rede viária em grelha, então poderá achar interessante olhar para ele um pouco.


A rede viária de Sydney é tão radial e o centro financeiro é um ponto tão importante, que a grelha toma mais a forma duma teia de aranha [4]. Eu destaquei essa estrutura no diagrama usando o preto e o vermelho para as linhas radiais e as outras cores para as linhas orbitais, de modo que as pessoas pudessem ver como estas poderiam operar e como todas elas poderiam interligar-se, bem como com o transporte ferroviário suburbano e o metro ligeiro, para formar uma rede completa.

Mas, na parte do meio do mapa, notam-se algumas linhas que tentam correr em linha recta de Leste para Oeste, ainda que a rede viária requeira muitas mudanças de direcção para continuar no mesmo sentido. Como eu já expliquei em mais detalhe [4], a maioria das redes em grelha envolve uma fusão de linhas em padrão de grelha rectangular e linhas em forma de teia de aranha. As linhas da grelha rectangular expressam um impulso para «servir em todos os lugares», enquanto as linhas em teia de aranha expressam um impulso para «focar no centro». O desenho duma rede é um processo de encontrar o equilíbrio e fazer ambas as formas funcionar juntas.

Há muitas maneiras de conceber um tal padrão para Sydney. Um esforço de planeamento detalhado passaria por meses de trabalho, explorando várias opções, mas o que eu esbocei neste artigo, com base na observação do centro da cidade ao longo de três anos e em cerca de três horas de reflexão, é, pelo menos, um passo em direcção a visualizar o futuro.

Portanto — sim, a sua cidade pode não ser uma grelha. Mas ainda assim, se o leitor quiser uma rede de transporte colectivo que seja útil para ir de qualquer lugar para qualquer lugar usando linhas com alta frequência, a resposta vai ser um tipo de grelha [4], com base em transbordos [5], com uma mistura de elementos rectangulares e radiais, todos adaptados, com mais ou menos dificuldade, à forma única da sua cidade.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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