Por Gustavo Martins-Coelho

Gustavo Martins-Coelho: Na semana passada [1], tive comigo a professora Doutora Isabel Loureiro, que introduziu o tema da obesidade infantil e apresentou o Papa Bem [2], um projecto que aborda a obesidade infantil e disponibiliza à população informação credível, baseada na evidência científica mais recente. Esta semana, vamos aprofundar o tema, mais uma vez agradecendo a presença da professora Isabel Loureiro e começando por perguntar-lhe como está organizado o Papa Bem…

Isabel Loureiro: O Papa Bem vai além das orientações habituais em torno da alimentação e da actividade física e foca o papel dos pais e do ambiente familiar num crescimento saudável. «Papa Bem: alimentar é educar» — o nosso slogan — remete exactamente para a ideia de que alimentar uma criança é muito mais do que disponibilizar-lhe alimentos. Tem que ver com uma abordagem integrada nas respostas às necessidades globais de desenvolvimento físicas, psicológicas e sociais da criança. A mensagem que pretendemos transmitir organiza-se assim em quatro grandes áreas: a alimentação, a actividade física, o sono, e a família e a comunidade. Os conteúdos procuram não só alertar os pais e cuidadores para a importância destas dimensões, mas também dar sugestões para a implementação de medidas concretas no dia-a-dia; e estão organizados em torno das etapas precoces do ciclo de vida: gravidez; dos 0 aos 6 meses; dos 6 aos 12 meses; 1 aos 3 anos; e 3 aos 5 anos. O melhor mesmo é visitar o site: www.papabem.pt, para consultarem o que se adequa melhor às suas necessidades.

Gustavo: É verdade que cada caso é um caso, mas, globalmente, quais são as mensagens centrais?

Isabel:

  1. Uma primeira mensagem sublinha a importância de acreditar nas capacidades inatas de auto-regulação do bebé e aprender a reconhecer os sinais da criança. O bebé nasce com a capacidade de regular a quantidade de alimentos que precisa de ingerir para dar resposta às suas necessidades de energia. Se conseguirmos aprender os sinais de fome e de saciedade do bebé e os respeitarmos, estaremos a contribuir para que o bebé mantenha um bom equilíbrio entre os alimentos que ingere e a energia que consome.
  2. Em termos de alimentação, já todos ouvimos recomendações sobre os alimentos que devem fazer parte duma alimentação saudável e da importância da sua diversidade. Mas não podemos esquecer as quantidades. Muitas vezes, receamos que a criança não esteja a comer o suficiente e esquecemo-nos de que estamos a alimentar uma criança pequenina.
  3. Em termos de atividade física, é preciso recordar que atividade física não é apenas a atividade estruturada, como a natação ou a ginástica. Todas as brincadeiras, dentro ou fora de casa, que impliquem movimento são essenciais para a saúde e desenvolvimento da criança. O papel dos pais é garantir tempo, espaço, segurança e ensinar à criança como é divertido. A exposição aos ecrãs, como a televisão e computadores, tem sido apontada como uma ameaça ao bom crescimento e desenvolvimento, se não controlada.
  4. O sono é uma componente fundamental para o equilíbrio da criança — quer físico, quer emocional, quer cognitivo — e considerado, também, um factor de prevenção da obesidade infantil.
  5. Finalmente, para saber se está tudo a correr bem, a importância de manter a monitorização do crescimento da criança. Nas crianças pequenas, é difícil perceber que a criança tem peso a mais sem fazer a avaliação objectiva do peso e da altura. As consultas de saúde infantil e a consideração das curvas de crescimento têm aqui um papel fulcral.

Gustavo: Portanto, depois do «quê», falta falar do «como»…

Isabel: O «como»… Todos os adultos do ambiente da criança têm um papel essencial enquanto modelos. A criança aprende aquilo que observa, por isso temos de estar atentos ao nosso próprio comportamento e dar oportunidades à criança para o observar, como as refeições em família. Por outro lado, é importante lembrarmo-nos sempre que a criança é um ser em constante desenvolvimento, com capacidades novas todos os dias, que devem ter a oportunidade de partilhar connosco. Por isso, devemos estar atentos ao que a criança já é capaz de fazer e dar-lhe espaço para que faça, mesmo que isso implique um pouco mais de tempo ou barafunda. Promover a sua autonomia desde sempre, atendendo às suas capacidades, é a melhor forma de garantir que os comportamentos aprendidos nesta fase do desenvolvimento da criança irão prosseguir ao longo da vida.

Gustavo: Mais uma vez, obrigado por ter estado comigo, a ajudar os adultos a promoverem a saúde das crianças.

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