Por Hélder Oliveira Coelho

No embrião do que seria a ideia de direitos humanos, o reconhecimento de que todos somos iguais, António Vieira terá sido, sem dúvida, um dos mais perfeitos príncipes da produção intelectual portuguesa. Do muito que escreveu, farei hoje apenas duas referências breves.

Começo por outro António. De simpatia popular, um dos doutores da igreja. Segundo a lenda, um pregador de excelência. Homem simples e, do planalto da simplicidade que caracteriza os grandes, veio a ser reconhecido entre humildes e poderosos. Santo António de Lisboa, ou de Pádua. Quando se ascende ao lugar de suma importância, todos nos reclamam como património seu. Faz lembrar o adágio popular:

— Tem parentes pobres?

— Tenho, sim, mas não conheço…

— Tem parentes ricos?

— Tenho, sim, mas não me conhecem!

A Santo António, até os peixes escutaram. Na busca por uma evangelização universal, a palavra do amor, do respeito, da caridade teve em António a voz gloriosa em vestes cinzentas.

Do milagre dos peixes se imortaliza um dos mais geniais sermões de António Vieira. Os peixes que se comem e exploram. Esta alegoria, que por todos nós foi estudada, mas por muitos esquecida. A sociedade em que vivemos, que nos consome e se dissipa na efemeridade da desvalorização do Homem, não é diferente daquela em que viveu Vieira. A escravidão é provavelmente mais sangrenta. O canibalismo é mais evidente e cruel. Selvagens os canibais que comiam os seus irmãos. Selvagens porque era com sangue que lavavam as suas mãos. Maior é a sujidade dos que canibalizam as almas. A hipocrisia social é a mais tenebrosa forma de canibalismo. Maior o é aquele que não quer parecer.

Dizia Sophia que as pessoas sensíveis não são capazes de matar galinhas, porém são capazes de as comer. A ausência de solidariedade e a necessidade de esmagar o outro com o nosso egoísmo vão condenar a Europa — e Portugal não escapa — nesta fome sangrenta autofágica de que todos padecemos. E a hipocrisia de deixar cair os mais fracos, aqueles pobrezinhos de África, chegará também aos pobrezinhos do mundo branco.

E diz Vieira que a solução para isto está no amor. E aponta quatro grandes pecados para que o amor não vença. Ou porque não nos conhecemos, ou porque não conhecemos o outro, ou porque não conhecemos o amor, ou porque não conhecemos aonde chegar, amando.

Esta explicação quase esotérica, que pode soar como tontice de padre velho, não é mais do que o caminho para a construção de uma sociedade melhor. Digo-o em abstracto, mas também nas vidas de cada um. Assim queiramos nós o bem comum pelo sucesso colectivo, ou pelo prestígio individual.

Se, por um lado, não soubermos olhar-nos, reconhecer forças, vitórias e fraquezas, como poderemos perspectivar-nos em sociedade? Mas, por outro, se o que vemos no outro não reconhecemos como algo também nosso, então nunca havemos de aceitá-lo ou compreendê-lo. Conhecer o fim que gostaríamos de alcançar, ainda que desconheçamos o caminho a percorrer, é um passo não menos importante para o sucesso. Por fim, reconhecer o que é o bem! Saber o que é o amor. Não na dimensão filosófica, mas na matriz. Senti-lo e praticá-lo. Sentir amor por si, pelos outros e pelas coisas. Deixar que só o amor nos sirva de pêndulo. E, mesmo face às mais terríveis feridas do canibalismo da imperfeição, do sangrento penhor moral, das vicissitudes da doença mental, mesmo nesses instantes, seja uma razão fundada no amor a guiar-nos, em vez da vingança ou do ódio.

A sabedoria popular imortalizou Santo António de Lisboa, os salões reais vergaram ao brilhantismo de Vieira. Todavia, a sociedade do século XXI, como as do século XIII ou XVII, definha na desigualdade, murcha na injustiça.

Diz o povo que, enquanto os bairros cantarem… Enquanto houver Santo António, Lisboa não morre mais.

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