Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Em 1982, 44 % dos Americanos acreditavam que Deus criara os seres humanos com o seu aspecto actual. Em 2012, os criacionistas são 46 % da população daquele país. Em 1989, 63 % dos Americanos consideravam as alterações climáticas um problema. Um quarto de século depois, eram 58 %. A sociedade tornou-se ambivalente e céptica, em relação ao conhecimento científico.

A meio do século XX, o progresso científico pôs o Homem na Lua e gerou o progresso económico do Ocidente. Os políticos financiavam a ciência, sem procurarem domá-la, ideologicamente. A forma como o lisenkoismo destruíra a Biologia soviética era um exemplo a não seguir. O triunfo da ciência levou à crença de que o progresso era inevitável. Mesmo quando a ciência entrava em conflito ideológico, os argumentos baseavam-se em factos.

Hoje em dia, contudo, é politicamente eficaz e socialmente aceitável negar os factos científicos. O criacionismo, por exemplo, deixou de ser uma corrente de fé menor nos EUA, para se tornar numa «ciência da criação», bem financiada e ensinada nas escolas. Os negacionistas das mudanças climatéricas seguiram-lhes as pisadas e conseguiram pôr a opinião pública em dúvida acerca de factos demonstrados há décadas. Os activistas contra a vacinação agitam um estudo há muito provado errado, sobre a ligação entre as vacinas e o autismo. A lista continua. Vivemos numa sociedade desligada da ciência, da tecnologia e da intelectualidade, ainda que o dia-a-dia esteja a tornar-se cada vez mais dependente da tecnologia.

Os pais sempre esperam deixar um mundo melhor aos seus filhos. Igualmente, os cientistas sempre esperaram deixar aos seus sucessores um mundo onde a ciência fosse cada vez mais aceite; sem fazer dela uma religião e mantendo a consciência de que a ciência e a matemática não resolvem todos os problemas, seria bom que mais pessoas compreendessem a importância do método científico de analisar os dados com a mente aberta, sem procurar obter determinado resultado.

Contudo, enquanto, há uma geração, um professor podia coçar a cabeça com bonomia perante um criacionista, hoje, o seu sucessor tem de vender a ciência no mercado dos pontos de vista. É preciso divulgar a ciência, como fazia o Carl Sagan. É preciso fazer blogues e festivais de ciência. É preciso organizar feiras de ciência nas escolas e alterar os currículos escolares. E é preciso trazer as crianças aos museus de ciência.

Mais do que aceleradores de partículas e observatórios espaciais, a ciência é uma tradição; e a História ensina-nos que até as tradições mais iluminadas podem ser perdidas para as trevas.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original, publicado no jornal «New York Times» [1].

Anúncios