Por Gustavo Martins-Coelho

O Alberto Morávia escreveu que:

Aquilo que nos modifica não são os factos extraordinários, que acontecem uma só vez, mas sim esse hábito, essa longa aceitação das coisas contra as quais deixamos de nos revoltar.

Pela mesma altura, li do Garrett:

[…] pergunto aos economistas políticos […] se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria […] para produzir um rico […]; cada homem rico […] custa centos de […] miseráveis.

E percebi que deixámos de nos revoltar contra esse hábito, que é o homem explorado pelo homem. Não nos indignamos, sequer, que haja centos de miseráveis, explorados como se de coisas se tratassem (por isso lhes chamam «recursos humanos», em vez de «pessoas»), ao serviço duns poucos ricos.

Somos frios. Gélidos. O nosso próximo está tão distante, como se vivesse noutro planeta!

O senhor Lazarescu [1] passou por mim. Precisava de fazer uma ecografia, mas estava para morrer.

— Já que está para morrer, pode ser que morra no caminho para cá e sempre se poupa o trabalho — disse o radiologista, quando recebeu a requisição do exame. Teve sorte e poupou o trabalho. Regozijou-se [2].

Tendo em conta a quantidade de pessoas que circula deitada de barriga para o ar nos hospitais, os tectos deveriam ter pinturas, ao estilo da capela Sistina. Já que é para morrer a caminho de fazer uma ecografia, que, ao menos, se morra consolado com arte.

Com ou sem arte, se eu morrer amanhã, o que de mim fica é isto: pensamentos dispersos, cosidos a fio grosso, nem sempre bem cozidos. Não ficam memórias senão estas, pois que as outras, a existirem, coisa que não é certa, pois, para existirem, têm de primeiro ter sido feitas e isso é mais do que a vida me diz que posso almejar, infalivelmente soçobrarão na indiferença alheia, muito antes da indiferença alheia soçobrar no pó que a terra nos empresta.

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