Por Gustavo Martins-Coelho [a]

A canção diz que não; e tem razão, porque o amor não é uma força misteriosa, mais forte do que tudo. A paixão pode disfarçar ao início, mas, uma vez finda, surgem os problemas.

A gata borralheira não casa com o príncipe. Na verdade, este tem nojo dela e quer uma princesa sofisticada. A educação, o meio escolar e o social condicionam os nossos gostos, as nossas atitudes e os nossos valores. Diferenças políticas, religiosas, socioeconómicas e mesmo afinidades desportivas ou preferências culturais podem impedir um relacionamento feliz.

O mais provável é algumas destas diferenças nem sequer permitirem um acordo quanto ao regime legal de casamento, ou qual a religião que dará a sua bênção ao enlace. Uma beta da Lapa casa com um proletário da margem sul: ele não consegue acompanhar o padrão de vida dela; ela não pretende descer ao dele. E agora?

Na maior parte dos casos, a religião, a ideologia política, a classe social e as preferências culturais espelham os valores de cada um; e os casais felizes gostam da mesma canção. Não têm de estar de acordo em tudo, nem de partilhar todos os interesses. Mas os valores fundamentais e a sensibilidade têm de ser comuns. Viver a dois a longo prazo tem de se basear numa sólida amizade, o que, por sua vez, requer cumplicidade e partilha dos valores fundamentais. Essa é a canção que ambos os amantes têm de gostar, para poderem amar-se.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original, publicado na revista «P3» [1].

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