Por Hugo Pinto de Abreu

Há uma nova normalidade? A crise profunda que atravessamos provocou e provoca um aumento da pobreza, da precariedade, das desigualdades, do sofrimento, da falta de esperança, da emigração. Contudo, ouso dizer que há uma nova normalidade: uma normalidade que não é apenas estatística, mas que advém da percepção de já não estar num estado de excepção.

Creio que os anos de 2011–2013 foram aterradores para a generalidade dos Portugueses. Foram anos de excepção, de alarme social, de manifestações — sonoras nas ruas e em pranto mais ou menos contido nos aeroportos.

A tímida recuperação económica e, creio que acima de tudo, a adaptabilidade inerente ao ser humano, conseguiram ir transformando este estado de excepção num estado de nova normalidade.

Dizem-me que vivemos em tempos de economistas e financeiros, mas parece-me que este é um tempo interessante, sobretudo, para sociólogos e especialistas em psicologia social. O que levou uma quantidade tão grande de jovens a acreditar — pacificamente e com (aparente?) normalidade — que o seu destino natural é a emigração, porque there is no alternative? Ou de que uma refeição normal é um bocado de sopa e uma peça de fruta?

Um dos momentos cruciais do contacto social é a apresentação: a dois, ou em grupo. Aquilo que me levou à ideia de uma nova normalidade foi a forma como se aborda a vertente profissional, nomeadamente, de emprego ou da falta dele. Assim, passou-se de um «o que é que fazes?» ou «em que trabalhas?» para uma abordagem tímida e bem cautelosa: «estás a trabalhar?».

Num contexto em que a taxa de desemprego jovem chegou a ultrapassar os 40 %, esta cautela tem, evidentemente, todo o sentido.  Gostaria de que a posteridade recordasse o tom em que habitualmente é feita: sem desdém ou irritação, mas com uma naturalidade delicada, seguida, eventualmente, dalgumas considerações acerca dos melhores países para emigrar, porque aqui — assim se diz — não há futuro.

Há? Não há? Já não sei. Mudemos de assunto.

Estás a trabalhar?

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