Por Satoshi Kanazawa [a]

Os pais têm algum efeito importante a longo prazo sobre o desenvolvimento da personalidade da criança? Este artigo examina os dados existentes sobre o assunto e conclui que a resposta é não.

Assim começa o artigo pioneiro de 1995, publicado na «Psychological Review», da Judith Rich Harris: «Where is the child’s environment? A group socialization theory of development» [Onde está o ambiente da criança? Uma teoria da socialização de grupo do desenvolvimento].

A Judith Rich Harris é um dos heróis mais invulgares da genética do comportamento. Em 1960, ela era uma estudante pós-graduada de Psicologia, na Universidade de Harvard. Depois de completar o mestrado, foi demitida do programa pelo chefe do departamento, o George A. Miller, que achava que a Judith Harris não era capaz de fazer um doutoramento. Trinta e cinco anos mais tarde, enquanto se sustentava através da escrita de livros de Psicologia, a Judith Harris trabalhou na sua teoria da socialização de grupo do desenvolvimento e publicou-a no prestigiado jornal científico «Psychological Review». Em 1997, o seu artigo ganhou um prémio da Associação Americana de Psicologia: o Prémio George A. Miller para um Artigo Recente Excepcional em Psicologia Geral. Sim, como ela mesma diz, Deus tem sentido de humor.

No seu artigo de 1995 e, mais tarde, no seu livro de 1998 «The nurture assumption: why children turn out the way they do» [O pressuposto da educação: por que as crianças crescem de determinada maneira] [2], a Judith Harris destrói metodicamente o pressuposto universalmente aceite de que a forma como os pais criam os filhos é um importante determinante da forma como estes evoluem. A Judith Harris argumenta que a socialização com os pais tem muito pouco efeito sobre as crianças, porque elas são maioritariamente influenciadas pelos seus pares. Embora a conclusão da Judith Harris tenha sido extremamente controversa e amplamente condenada tanto por políticos como pelos meios de comunicação social, ela é, de facto, corroborada pela investigação em genética do comportamento.

Os geneticistas do comportamento decompõem a variância total na personalidade e no comportamento em três componentes: hereditariedade (genes), ambiente partilhado (tudo o que acontece dentro da família, que torna os irmãos duma família semelhantes entre si, mas diferentes dos doutra família) e ambiente não partilhado (tudo o que acontece dentro e fora da família, que torna os irmãos duma família diferentes um do outro). Os geneticistas do comportamento afirmam que a regra básica, quando se trata dos determinantes do desenvolvimento da criança, é 50-0-50, ou seja, cerca de 50 % da variância na personalidade, no comportamento e noutras características é hereditária (influenciada pelos genes), cerca de 0 % depende do ambiente partilhado (o que acontece dentro da família e é vivido por todos os irmãos) e cerca de 50 % é determinado pelo ambiente não partilhado (o que acontece dentro e fora da família, mas não é partilhado pelos irmãos).

Naturalmente, a distribuição precisa entre os três componentes varia de acordo com o traço em questão e também com a população utilizada para realizar as estimativas. Por exemplo, a inteligência tem maior herdabilidade do que a maioria dos traços de personalidade e é cerca de 80 % hereditária (determinada pelos genes). Outro problema do método da genética do comportamento descrito acima é que a categoria de «ambiente não partilhado» é uma categoria residual, que inclui não só todos os efeitos genuínos do ambiente não partilhado, mas todos os erros e efeitos não medidos que não se enquadram nas duas primeiras categorias. Também inclui a forma como indivíduos com diferentes predisposições genéticas reagem ao mesmo ambiente de forma diferente (interacção entre genes e ambiente). Contudo, para a maioria dos traços de personalidade e de comportamento, a regra dos 50-0-50 é geralmente adequada.

O trabalho da Judith Harris destaca a importância do meio ambiente não partilhado (em particular, a socialização entre pares) no desenvolvimento da criança e explica, em parte, por que os irmãos que partilham metade dos seus genes e são criados pelos mesmos pais, dentro da mesma família, muitas vezes podem ser muito diferentes, muitas vezes tão diferentes quanto crianças de famílias diferentes. Claro que, contrariamente à forma como a comunicação social retratou (e violentamente atacou) o trabalho da Judith Harris, isso decididamente não significa que os pais não sejam importantes para o desenvolvimento das crianças. Pelo contrário, isto significa que os pais são extremamente importantes, porque 100 % dos genes das crianças provêm dos seus pais biológicos e algum do meio ambiente não partilhado é fornecido pelos pais. Significa simplesmente que, dentro de limites amplos, a forma como os pais criam e socializam os seus filhos pode não ser muito importante para a sua personalidade adulta. E também explica por que as crianças adoptadas muitas vezes acabam por ser muito semelhantes aos pais biológicos e não como os seus pais adoptivos.

Os filhos assemelham-se muito aos pais em termos da sua personalidade, dos valores e do comportamento. Mas é principalmente porque partilham genes comuns, não porque os pais criaram os filhos de determinada maneira. Como o falecido grande geneticista do comportamento (e um velho amigo meu) David C. Rowe diz:

— Dá-se muitas vezes demasiado crédito aos pais pelos filhos que acabam bem e culpa-se demasiado aqueles cujos filhos acabam mal. A fonte de influência causal não está na diferença em como foram criados, mas nos genes e na variação ambiental não partilhada.

Sugiro a leitura dum artigo [3] do «New York Times», que faz o mesmo argumento sobre a importância relativa dos genes e da parentalidade no crescimento das crianças, apresentando a investigação da Nancy L. Segal, da «Psychology Today». Fica também o meu agradecimento, mais uma vez, ao Jay Belsky, por me alertar para este artigo e pelas muito úteis discussões.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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