Por Satoshi Kanazawa [a]

No meu artigo anterior [2], discuti a «regra dos 50-0-50» da genética do comportamento— como os genes e o ambiente não partilhado contabilizam cada um cerca de metade da variação na personalidade e no comportamento adultos e como o ambiente partilhado entre os irmãos não tem praticamente qualquer efeito sobre a forma como as crianças crescem. Uma área em que a regra 50-0-50 se aplica perfeitamente é a intensidade da ligação partidária, a força com que uma pessoa se identifica com o seu partido político.

O cientista político que foi pioneiro na abordagem de genética do comportamento à política, mais do que qualquer outro, é o James H. Fowler, da Universidade da Califórnia em São Diego, que é uma das jovens estrelas em ascensão da ciência política. Entre as suas inúmeras outras contribuições significativas para a ciência política, por exemplo, o James Fowler conseguiu isolar dois genes únicos (MAO-A e 5-HTT), que influenciam de forma significativa a abstenção. Por outras palavras, a decisão de cada indivíduo ir votar, independentemente do partido em que vota, numas dadas eleições, é fortemente influenciada pelos genes.

Na área da intensidade da ligação partidária (a força com que um indivíduo se identifica com o seu partido político), os modelos de genética do comportamento do James Fowler e colegas mostram que segue aproximadamente a regra dos 50-0-50, ou, mais precisamente, 46-0-54: 46 % da variância na intensidade da ligação partidária é hereditária (determinada pelos genes), 0 % é devida ao ambiente partilhado e 54 % é devida ao ambiente não compartilhado. É importante não dar demasiada importância aos números exactos desta divisão, porque esta é sujeita variar um pouco, dependendo de que amostras e populações são usadas pelos investigadores.

De facto, num artigo publicado na «Political Science Quarterly», o Peter K. Hatemi e os seus colegas estimam que a proporção é, precisamente, 50-0-50. Os seus modelos, tanto para homens como para mulheres, mostram que exactamente 50 % da variação na intensidade da ligação partidária é hereditária, exactamente 0 % é atribuível ao ambiente partilhado e exactamente 50 % é devida ao ambiente não partilhado. Mais uma vez, a mensagem importante é que a proporção é mais ou menos 50-0-50 para muitos traços de personalidade e de comportamento nos adultos.

Curiosamente, o mesmo artigo mostra que, enquanto a intensidade da ligação partidária (a força com que o indivíduo se identifica com o seu partido político) é fortemente influenciada pelos genes, a identificação partidária (o partido com o qual o indivíduo se identifica) não é de todo hereditária; em vez disso, a identificação partidária parece ser em grande parte determinada pelo ambiente partilhado. Por outras palavras, o leitor é de esquerda (por oposição a ser de direita), porque os seus pais o ensinaram a ser de esquerda, mas é convictamente de esquerda (por oposição a ser simplesmente de esquerda), por causa dos seus genes. Por consequência, a forte hereditariedade da intensidade da ligação partidária, mas não da identificação partidária, significa que um esquerdista convicto tem mais probabilidade de criar um filho convictamente de direita, do que um moderado de esquerda.

Para complicar as coisas, enquanto ser de esquerda ou de direita não parece ser uma característica hereditária, ser liberal ou conservador nos costumes é, em grande parte, uma questão genética. Um artigo inovador, publicado na prestigiada revista de ciência política «American Political Science Review», em 2005, por John R. Alford, Carolyn L. Funk e John R. Hibbing, mostra que a orientação política na escala liberal–conservador (medida pela atitude dos entrevistados numa ampla variedade de 28 temas diferentes, desde a pornografia aos direitos dos homossexuais, passando pela energia nuclear e a ajuda externa) é parcialmente hereditária, embora a proporção se afaste um pouco da regra 50-0-50. Em vez disso, a sua análise genética do comportamento duma amostra americana mostra que a proporção seja 43-22-35: 43 % da variação na atitude política (liberal–conservador) é determinada pelos genes, 22 % pelo ambiente partilhado e 35 % pelo ambiente não partilhado. Ainda que o efeito do ambiente partilhado, na sua análise, não seja zero, permanece o determinante mais fraco da atitude política, enquanto os genes são ainda o mais importante, duas vezes mais importante do que a socialização com os pais.

Os trabalhos pioneiros do James H. Fowler e doutros membros dum (ainda) pequeno contingente de cientistas da genética do comportamento político (não tenho a certeza se já há um nome estabelecido para a sua abordagem em ciência política [b]) demonstram a importância das influências genéticas para toda uma série de traços comportamentais e de personalidade, incluindo a atitude política e intensidade da ligação partidária.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

b: O James diz-me que o seu nome preferido para o campo que ele está a ajudar a criar é «genopolítica». Eu gosto desse nome e espero que pegue (n. do A.).

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