Por Gustavo Martins-Coelho

Esta noite, não dormi o suficiente, mas há males que vêm por bem, porque isso deu-me a ideia de falar do sono. Por que dormimos? Se temos 24 horas num dia, por que não podemos aproveitá-las todas para fazer coisas; por que temos de passar um terço das nossas vidas deitados, de olhos fechados, desligados do que se passa à nossa volta? Dormir é fundamental à nossa saúde e bem-estar ao longo da vida. A quantidade certa de repouso de qualidade no momento certo ajuda a proteger a saúde mental e física e a aumentar a qualidade de vida e a segurança. Na verdade, sentir-se bem enquanto se está acordado depende, em parte, do que acontece enquanto se dorme. Como disse o Carlos [2] aqui há tempos, «é impossível a vida sem períodos de sono» [1].

O repouso garante o funcionamento normal do cérebro [1]. Enquanto se dorme, o cérebro prepara-se para o dia seguinte e forma novas vias para ajudar a aprender e a memorizar informação. O repouso ajuda a melhorar a aprendizagem e a capacidade de resolver problemas. Além disso, também melhora a atenção, a forma como se tomam decisões e a criatividade. A falta de repouso altera a actividade do cérebro, dificultando esses processos de tomada de decisões, de resolução de problemas e afectando o controlo emocional, o comportamento e a adaptação à mudança. Dormir pouco é um factor de risco para a depressão e o suicídio. No caso das crianças e dos adolescentes, dormir pouco pode trazer-lhes problemas na relação com os outros, irritabilidade, impulsividade, alterações do humor, tristeza e falta de motivação. Além disso, aumenta a dificuldade de concentração e o estresse e pode conduzir a piores resultados escolares.

A saúde física também depende da forma como se dorme. Por exemplo, durante o repouso, o coração e os vasos sanguíneos são reparados. Assim, a continuada falta de horas de sono relaciona-se com um risco aumentado de doenças do coração e dos rins, de tensão arterial alta e de acidentes vasculares cerebrais. Aumenta também o risco de obesidade: quando não se dorme o suficiente, aumenta a concentração de grelina, uma hormona que faz sentir fome, e diminui a de leptina, a hormona da saciedade. A diabetes também é um risco para quem dorme pouco: o nível de insulina baixa, aumentando a concentração de açúcar no sangue. O sistema imunitário, que defende o organismo contra infecções e substâncias perigosas, também depende dum repouso saudável; a falta de repouso adequado pode afectar a forma como nos defendemos de infecções comuns.

Nas crianças e nos adolescentes, contribui para o crescimento e o desenvolvimento saudáveis. O sono profundo desencadeia a libertação da hormona do crescimento, que promove o crescimento dos ossos e o desenvolvimento da massa muscular. Além disso, o sono também afecta a puberdade e a fertilidade.

Além da saúde mental e física, o repouso também é necessário a um bom desempenho e à segurança diários. As pessoas que dormem pouco são menos produtivas, na escola e no trabalho: demoram mais a completar as tarefas, reagem mais devagar aos estímulos e cometem mais erros. Além disso, podem fazer aquilo a que os especialistas chamam de microssono: dormir por breves momentos, enquanto se está acordado. Não é possível controlar o microssono e, por vezes, nem se está consciente do mesmo. Por exemplo, já alguma vez foi de carro, a conduzir, a qualquer lado e, no final, não conseguir recordar uma parte da viagem? Pode ter feito a viagem simplesmente distraído com outra coisa, mas também pode ser um sinal de que passou por um período de microssono durante a mesma. Este microssono pode afectar a vida diária, mesmo quando não se está a conduzir.

Além disso, a falta de sono pode ter efeitos de larga escala, além destes efeitos a nível pessoal. Se não se tiver consciência de estar privado dum repouso adequado, pode-se pensar que se consegue desempenhar as tarefas adequadamente. Por exemplo, os condutores podem sentir-se capazes de conduzir, mesmo com sono. No entanto, a capacidade de conduzir é afectada pelo sono tanto ou mais do que pelo álcool; por algum motivo existe a expressão «estar bêbado de sono»… De igual forma, a fadiga resultante da falta de repouso adequado pode afectar profissionais de saúde, pilotos, estudantes, advogados, mecânicos e operários em linhas de montagem. Sabemos hoje que a falta de repouso adequado esteve ligada a vários acidentes trágicos na história da humanidade, tais como acidentes em centrais nucleares, naufrágios e acidentes de aviação.

Resumindo: a falta de repouso pode ter efeitos agudos e crónicos. O efeito agudo relaciona-se, sobretudo, com a maior propensão a acidentes, enquanto o efeito crónico tem que ver com problemas de saúde crónicos. Além disso, as noites mal dormidas também pode afectar a forma como se reage, trabalha, aprende e relaciona com os outros. Acordar com os pés de fora é um ditado mais literal do que possamos pensar…

Concluo com um pormenor não despiciendo: dormir menos uma hora ou duas por noite do que o necessário, durante várias noites, tem os mesmos efeitos que passar uma ou duas noites completamente em branco.

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