Por Ana Raimundo Santos

«Era uma vez…»

Todas as histórias de encantar que ouvimos inúmeras vezes em criança começam com «era uma vez…». São sempre histórias com príncipes, princesas, fadas, duendes, bruxas, madrastas más, lutas entre o bem e o mal, onde o bem vence sempre, e finais felizes. Nas histórias de encantar, os bons vivem felizes para sempre e nós, então crianças, crescemos a acreditar em contos de fadas e em finais felizes, até ao dia em que vida nos mostra que não é bem assim.

Ser feliz é um caminho espinhoso e difícil, com altos e baixos e muitas desilusões. A felicidade é um estado, não uma forma de vida — estamos felizes, não somos felizes. É por não sermos sempre felizes que damos valor aos momentos de felicidade que vamos construindo na vida. Estar feliz dá muito trabalho.

Há dias, numa conversa pouco amena, o meu interlocutor perguntava-me se eu era feliz. Naquele momento não estava feliz, mas sim, tinha tido muitos momentos de felicidade, que me davam alento e esperança para continuar a caminhar naquele caminho.

— Somos diferentes — foi a resposta que obtive.

A verdade é que a vida não é como nos contos de fadas. Crescemos, apaixonamo-nos e desapaixonamo-nos inúmeras vezes até encontrarmos «aquela» pessoa. E, ainda assim, nada garante que a felicidade chegue.

Sempre ouvi dizer que gostar só não chega e, de forma utópica, sempre quis acreditar que tal não era verdade. Para mim, quando duas pessoas gostavam uma da outra tudo era possível e, mais cedo ou mais tarde, acabariam por ficar juntas e viver o seu amor. Conclusão? Afinal não é bem assim — gostar só não chega, mesmo. É preciso que a vida e os intervenientes dum amor se orientem e organizem, para que a felicidade seja possível. Se falha uma pequena peça fundamental, por maior que seja o amor, o sofrimento e a separação vencem. Mas, ainda assim, todos os momentos de felicidade, por poucos que sejam, valem tudo o que sofremos a seguir.

Sempre fui acusada de ser demasiado emotiva, de ser toda feita de coração e de sentir tudo muito à flor da pele. Esta característica já me fez sofrer muito, é verdade. Mas também já me deu muitos momentos de felicidade, muitas alegrias, muitas emoções que fazem de mim a pessoa e a mulher que sou e que gosto de ser. Não é fácil, decerto, porque, como sinto muito, também sofro muito, mas, no final, o balanço tende a ser positivo, porque, apesar da tristeza e do sofrimento, para mim, estar feliz vale sempre a pena. Por isso, agradeço todas as histórias de encantar que ouvi e com certeza irei contá-las aos meus filhos, se um dia os tiver, porque é nelas que a nossa vontade de felicidade começa.

Não — não acredito que temos o direito a ser felizes. Acredito — sim — que temos o direito a partir em busca da nossa felicidade e de construí-la o melhor que sabemos e podemos. A felicidade é um direito de quem a constrói, cuida e protege. Mas também é um direito de quem não tem medo de tentar alcançá-la. Se tivermos medo de arriscar, nunca vamos estar verdadeiramente felizes.

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