Por Gustavo Martins-Coelho

A morte mais não é do que a devolução ao seu devido proprietário, com os juros devidos, de tudo o que nos foi em vão emprestado e arrogantemente julgámos eterno e eternamente nosso.

O maior inconveniente da morte é ser uma transição definitiva. As coisas definitivas incomodam-me tanto quanto me assustam. Não consigo tomar decisões definitivas, porque tenho medo de mudar de ideias mair tarde. Tenho medo de me arrepender e de não poder voltar atrás. É por isso que nunca me verão tatuado. As tatuagens são a morte indelével da pele. Nunca me dedicarei ao suicídio. E se me arrependo antes do último suspiro?

Não quero morrer. Nem sequer sei morrer. Ainda nem sei se sei viver. Anos de experiência não me fizeram minimamente experiente. Ainda não cometi erros suficientes para poder dizer que sei. As decisões acertadas vêm com a experiência. A experiência vem com decisões erradas.

Ir ao médico é uma boa forma de antecipar a morte. Morre-se mais nos hospitais, do que fora deles. Por exemplo, eu entrei no otorrino com uma espinha de carapau enfiada na garganta [1] e saí de lá com um desvio do septo nasal. Deixei-me ficar com ele, apesar de ter remédio: é meu!

Mas nem tudo tem remédio; e o que não tem remédio remediado está. Se bem que há tantos remédios (Aspirina, Primperan, podia continuar indefinidamente — há imensos e a lista aumenta sempre), que custa acreditar que possa haver alguma coisa que não tenha remédio. Ainda por cima, há genéricos [2, 3]. Mas o melhor de todos é o riso. Toda a gente sabe que rir é o melhor remédio. E o que é melhor do que rir? Prevenir. Rir é o melhor remédio, decerto, mas não deixa de ser um remédio. Ora, dado que toda a gente sabe que mais vale prevenir do que remediar, prevenir é melhor do que qualquer remédio, incluindo o melhor de todos os remédios — rir. Se prevenir é melhor do que rir, prevenir tem de ser uma coisa séria, eventualmente triste. Não pode é ser alegre, para não correr o risco de causar riso, porque, se assim for, já estaremos a remediar, em vez de prevenir. A remediar da melhor forma, decerto, mas, ainda assim, a remediar. E o objectivo de prevenir é dispensar o remedeio. É sempre melhor educar do que medicar. Mas, se prevenir é triste, para não arriscar fazer rir, prevenir, à semelhança das restantes tristezas — que toda a gente sabe que não pagam dívidas —, também as não paga, o que faz da prevenção má pagadora. Porque, se fosse boa pagadora, não deixaria as dívidas por pagar. Mas, para não pagar as dívidas, tem de inventar desculpas. De mau pagador, claro está!

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