Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Em 2013, a situação no Egipto tinha evoluído da ditadura de Mubarak para uma primavera em que os democratas desceram à rua e os generais depuseram o velho ditador, seguindo-se eleições livres e justas, ganhas pelos irmãos muçulmanos. Estes começaram a queimar igrejas cristãs, cortaram as liberdades dos não crentes e alargaram a prática corânica. Os laicos saíram à rua e os militares prenderam o presidente democraticamente eleito. O povo da irmandade saiu à rua, em nome da democracia, e os generais recorreram à força para conter os protestos.

Os irmãos muçulmanos, que começaram por ser maus, passaram a bons contra o ditador Mubarak, ainda melhores quando ganharam a eleição, voltaram a maus no poder, e novamente a bons mártires e perseguidos. Os ocidentais cortam os apoios, mas os países árabes conservadores aguentam a economia egípcia.

O problema é que a democracia tem duas versões, que são contraditórias — uma é a vontade sagrada e absoluta da maioria, que nunca se engana; a outra é a protecção dum núcleo de direitos individuais, anteriores à própria comunidade política e que devem ser preservados mesmo contra a maioria.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original, publicado no jornal «Sol» [1].

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