Por Satoshi Kanazawa [a]

Tanto os cientistas sociais como o público em geral acreditam que a comunicação social impõe imagens arbitrárias do ideal de beleza feminino às meninas e às mulheres da nossa sociedade, forçando-as a aspirar atingir esses padrões artificiais e arbitrários. Nada poderia estar mais longe da verdade.

De acordo com esta teoria, as meninas e as mulheres querem parecer supermodelos, actrizes ou artistas musicais, porque são bombardeadas com imagens dessas mulheres. Por consequência, de acordo com este ponto de vista, as meninas e as mulheres deixariam de querer parecer-se com elas, se a comunicação social deixasse de inundá-las com essas imagens, ou mudasse os padrões arbitrários de beleza feminina. Este ponto de vista foi promovido, entre muitos outros, pela ex-modelo tornada activista social feminista Jean Kilbourne, na sua série de documentários: «Killing us softly».

Aparentemente, a Jean Kilbourne e outras feministas acreditam que as meninas e as mulheres são robôs descerebrados, capazes de fazer e acreditar em qualquer coisa que os agentes de publicidade lhes digam. Afirmar que as meninas e as mulheres querem parecer louras espampanantes por causa de cartazes, filmes, programas de televisão, vídeos musicais e anúncios de revista faz tão pouco sentido como alegar que as pessoas ficam com fome, porque são bombardeadas com imagens de comida na comunicação social. Se a comunicação social deixasse de inundar as pessoas com imagens de comida, elas nunca mais teriam fome!

Qualquer um pode ver o absurdo deste argumento. Temos fome periodicamente, porque temos mecanismos fisiológicos e psicológicos que nos obrigam a procurar e a consumir alimentos; e temos esses mecanismos inatos, porque eles resolvem um importante problema adaptativo de sobrevivência. Os nossos antepassados (muito antes de sermos humanos, ou mesmo mamíferos) que, dalguma forma, não sentiam fome não sobreviveram tempo suficiente para deixar uma prole com os seus genes. Nós sentiríamos igualmente fome, mesmo que todos os anúncios a comida desaparecessem hoje. A publicidade é a consequência da nossa tendência a ter fome, não a causa. Ela explora a nossa necessidade inata de comida, mas não a cria.

O mesmo acontece com o ideal da beleza feminina. Dois elementos de prova devem ser suficientes para refutar a alegação de que as imagens na comunicação social e a «cultura», em geral, forçam meninas e mulheres a desejar ser loiras espampanantes. Primeiro, as mulheres já pintavam o cabelo de loiro há mais de meio milénio, possivelmente até há dois milénios, quando não havia televisão, filmes nem revistas (embora houvesse retratos; e é devido a estes retratos que nós sabemos hoje que as mulheres tingiam o seu cabelo de loiro na Itália dos séculos XV XVI). O desejo das mulheres de serem loiras precedeu a comunicação social em séculos, se não milénios.

Em segundo lugar, um estudo recente mostra que as mulheres do Irão, onde geralmente não existe exposição à comunicação social e à cultura ocidentais e que, portanto, não conseguiriam distinguir a Jessica Simpson da Roseanne Barr, e onde a maioria das mulheres usam o tradicional hijab, que cobre todo seu corpo, de modo a tornar impossível ver o seu aspecto, na verdade estão mais preocupadas com a sua imagem corporal e querem perder mais peso do que as suas homólogas americanas, na terra da Vogue e da boneca Barbie. As ciências sociais tradicionais, que atribuem as preferências e os desejos das mulheres inteiramente à socialização e aos meios de comunicação social, terão dificuldade em explicar como as mulheres italianas do século XV e as mulheres iranianas de hoje aspiram a ter a mesma imagem ideal da beleza feminina que as mulheres das sociedades ocidentais contemporâneas.

Então, por que querem as mulheres parecer loiras espampanantes? A psicologia evolutiva sugere que é porque os homens querem acasalar com mulheres com esse aspecto. O desejo das mulheres de ter esse aspecto é uma resposta directa, realista e sensata a esse desejo dos homens. Isso leva a outra pergunta: por que querem os homens acasalar com mulheres com esse aspecto? Porque as mulheres assim têm maior valor reprodutivo e fertilidade e alcançam maior sucesso reprodutivo, em média. Nada há de arbitrário na imagem do ideal da beleza feminina; foi precisamente e cuidadosamente calculada por milhões de anos de evolução, por selecção sexual. Os homens de hoje querem acasalar com mulheres que se parecem com loiras espampanantes e, por consequência, as mulheres querem ser assim parecidas, porque os homens ancestrais que não queriam casar com mulheres com esse aspecto não deixaram tantos descendentes como aqueles que tinham essa preferência.

Vamos ver em mais detalhe o que eu quero dizer com «loira espampanante». Note-se, em primeiro lugar, que há uma longa linhagem de loiras espampanantes na comunicação social ocidental: Pamela Anderson, Jordan, Madonna, Brigitte Bardot, Jayne Mansfield, a icónica Marilyn Monroe e ainda mais, para trás na História. E há inúmeros exemplos contemporâneos, também: Jessica Simpson, Cameron Diaz, Scarlett Johansson, entre muitas outras. Os leitores de sociedades não-ocidentais podem substituir por representantes da beleza feminina das suas próprias culturas. Eu não sei quem são, mas, ainda assim, tenho a certeza de que elas partilham muitas das características das suas homólogas ocidentais.

Quais são essas características? Nos próximos artigos [2], vou isolar e discutir as principais características que definem a imagem do ideal de beleza feminina: jovem, cabelos longos, cintura fina, seios grandes, cabelo loiro, olhos azuis e olhos grandes. Há uma lógica evolutiva por trás de cada uma.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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