Por Sara Teotónio Dinis

Salovey e Mayer descrevem a inteligência pessoal como «a capacidade de perceber e exprimir a emoção, assimilá-la ao pensamento, compreender e raciocinar com ela, e saber regulá-la em si próprio e nos outros.» Já Goleman refere-se a ela desta forma: «capacidade de identificar os nossos próprios sentimentos e os dos outros, de nos motivarmos e de gerir bem as emoções dentro de nós e nos nossos relacionamentos.»

Goleman, para além de definir a inteligência emocional, categoriza-a em cinco habilidades: auto-conhecimento emocional, controlo emocional, auto-motivação, reconhecimento de emoções noutras pessoas, habilidade em relacionamentos interpessoais.

As duas últimas habilidades assumem particular importância na organização de grupos, na negociação de soluções, na empatia e na sensibilidade social.

Quem já assumiu posições de liderança já sentiu efectivamente na pele a sensação da necessidade vital do diálogo, da compreensão e da interacção, para que se mantenha viva a motivação comum ao grupo, condição essencial para a luta pelo objectivo final e que é do interesse de todos.

Nunca assumi posições de liderança, mas sinto que o funcionamento viável da trama das relações interpessoais precisa, efectivamente, de muita inteligência emocional, principalmente em períodos de crise.

O início da avaliação duma situação (situação essa que não tem necessariamente de ser uma crise), começa por parar, olhar, escutar, sentir. Podemos aperceber-nos de que existem sinais ou sintomas. Se não há diálogo, não pode haver sintomas; contudo, na ausência destes, há sinais; e aqui entra em acção o dom da observação e da percepção da linguagem corporal e a avaliação do padrão comportamental, quer através da voz, quer através da expressão facial, etc.

Tendo sido identificado o estado emocional do outro, ou a sua variação, o próximo passo é empregar essa informação no sentido de facilitar o pensamento e o raciocínio. Os sinais que reconhecemos são dados que devemos integrar na abordagem que poderemos eventualmente fazer, relativamente à perturbação geral dos espíritos. O que fazemos ou não a partir daqui é da nossa responsabilidade.

A noção da inteligência emocional engloba assim dois pontos principais:

  • nós → nós: percebermos as nossas emoções, usarmos as nossas emoções para facilitar o raciocínio sobre elas, entendê-las e, por fim, transformá-las;
  • outros → nós → outros: basicamente, o processo referido nos parágrafos anteriores.

Estes dois pontos têm como objectivos a compreensão do outro e dos seus motivos, com o objectivo final de canalizá-los para o interesse comum. Na teoria, é um bom fio condutor. Na prática, coloca-se um problema.

A diversidade de respostas nos modos de agir e de reagir, as diversas interpretações das palavras que se dizem, a educação de cada um e os seus condicionantes ambientais predispõem ao desentendimento e a grandes falhas na comunicação (ocasionadas na sua maioria das vezes pela falta de diálogo).

Na prática, há uma tendência para as personalidades mais volúveis dirigirem o esquema para a assertividade, enquanto que as personalidades mais vincadas acabam por se fazer impor; e é aqui que se pode perceber a falha no fio condutor que pretende ser a inteligência emocional.

Na senda pelo objectivo comum, são as personalidades mais volúveis que acabam por fazer o maior número de sacrifícios para que as relações interpessoais sobrevivam — e como qualquer desequilíbrio, este também acarreta as suas consequências.

Há outro tipo de inteligência, a inteligência intrapessoal; e é no confronto entre esta e a emocional que o desequilíbrio se torna consciente ao desequilibrado e a crise surge.

Essa crise advirá da ambiguidade entre dois quereres que se digladiam no interior duma só mente: o querer o que é melhor para todos e o querer o que é melhor para o próprio.

Quem se vê nesta arena de sentimentos e quereres tem, perante crises pontuais, de efectuar decisões nem sempre fáceis, que podem mimetizar a sua bipolaridade comportamental. O comportamento adoptado numa situação, quer se opte pelo querer pessoal, quer pelo querer comum, acarreta um peso, uma culpa — no primeiro caso a culpabilização é externa e tem o rótulo de «egoísmo», pois optou-se por se «fazer o que é melhor para o próprio»; no segundo caso a culpabilização é interna e tem o rótulo de «cobardia», pois optou-se por se anular traços de personalidade que iriam chocar com os dos outros.

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