Por Ana Raimundo Santos

Há uns anos, num simpático jantar com amigos, um deles olhou para o resto do grupo e disse peremptoriamente e com ar muito sério:

— Estamos a ficar velhos!

Éramos um grupo pequeno, que se entreolhou e ficou na dúvida sobre se a afirmação era fruto do vinho já ingerido, ou se era motivada por alguma convicção desconhecida para os restantes. Antes mesmo de perguntarmos porquê, o eloquente jovem continuou:

— Percebemos que estamos a ficar velhos quando deixamos de misturar fruta no vinho.

A gargalhada foi geral, mas a verdade é que aquilo fazia algum sentido. Aos 27, começavam os primeiros a sair de casa dos pais e a assumir responsabilidades que até então não existiam. Crescemos, amadurecemos, alguns saíram do país, alguns tiveram a ousadia de se lançar por conta própria, outros têm um emprego de que gostam, mas há algo que ainda se mantém comum a todos — a sensação de que a juventude ainda agora vai no adro.

Hoje, anos depois de eu mesma me ter lançado na aventura de viver sozinha e completados os trinta anos, as interrogações que surgem na minha cabeça são muitas: e agora? O que é suposto fazer aos trinta — e depois deles? Será que agora estou velha?

Os vinte foram muito mais fáceis — a faculdade era a realidade e a única responsabilidade de monta era estudar e tirar boas notas. Agora, aos trinta, a coisa complica. Parece que a vida nos dá uma lista de coisas que já deveríamos ter feito, vivido e concretizado. A pressão é imensa e há quem não aguente as exigências familiares e sociais. Apesar de tudo, ainda somos uma das últimas, se não a última geração que, no meio do lodo em que vive este país, se conseguiu safar e está bem na vida.

A verdade é que todos nós, os que agora chegam ou têm trinta anos, começámos tudo muito mais tarde. Estudámos até mais tarde, começámos a trabalhar mais tarde, saímos de casa dos pais mais tarde, por isso também temos direito a viver uma série de outras coisas mais tarde.

Mas isso não significa que não tenhamos o direito de apreciar as coisas boas da vida. Tenho para mim que não misturar fruta no vinho é sinal de bom gosto e não de velhice. Assim como o são as happy hours ao fim dum dia de trabalho no Verão, ou os jantares e as conversas até às tantas com os amigos.

Aqui há dias, o Brad [1] comentou um artigo meu e escreveu assim:

— Concordo que os trinta são os novos vinte, no que concerne ao turbilhão de emoções. No entanto, os trinta têm muito mais classe.

Não podia estar mais de acordo.

Não estamos a ficar velhos! Estamos a ficar maduros, mas com muita classe e bom gosto! E ai de quem diga o contrário, porque, ou não tem trinta anos, ou então não anda a viver bem a vida!!!

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