Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Em 2011, a poucas semanas das eleições, o inefável Álvaro publicava no seu blogue [2] oito indicadores, que demonstravam, segundo o autor, o terrível legado do governo do PS. Pouco tempo depois, o Álvaro tornava-se ministro da Economia. Assim, é justo que o legado do governo que agora termina o mandato seja avaliado pelos mesmos indicadores:

  • PIB potencial — o PIB potencial estaria em 2010 «a crescer 0% ao ano». Daí para cá, os valores foram: -0,4 % em 2011, -1,0 % em 2012, -1,0 % em 2013 e -0,9 % em 2014.
  • Dívida pública — a dívida pública era em 2004 62 % do PIB, em 2008 71,7 % e em 2010 96,2%. Em 2014, atingiu os 130,2 % do PIB.
  • Taxa de desemprego — a taxa de desemprego em 2004 era de 6,6 % e em 2011 de 12,4%. Em Julho de 2015, era ligeiramente menor: 12,1 %. Mas, curiosamente, quando o Álvaro deixou de ser ministro, era de 16,6 %.
  • Dívida externa total bruta — a dívida externa bruta da economia nacional passara de 167,9 % do PIB em 2005 para 230 % do PIB em 2011. Quatro anos depois, aumentou para 232,3% do PIB.
  • Dívida externa líquida — o Álvaro apontava 110 % do PIB para a dívida externa líquida, mas o valor real em 2011 era de 82,4 % (o Álvaro nunca teve grande jeito para os números [3]). Nos quatro anos seguintes, o endividamento externo líquido acentuou-se para 104,7 % do PIB.
  • Défice externo — é o principal feito deste governo, mercê da contracção das importações (em resultado da baixa do preço do petróleo e da quebra dos rendimentos) e do aumento das exportações (resultante da depreciação externa do Euro e do redireccionamento com sucesso de muitas empresas para os mercados externos). A balança corrente era de -10,1 % em 2010 e passou para 0,6 % em 2014.
  • Emigração — Em 2011, o Álvaro deplorava os «mais de 100 mil portugueses que emigraram do país em busca de oportunidades de emprego» entre 2007 e 2008. Porém, entre 2011 e 2013, saíram do País 280.000 pessoas.
  • Convergência face à Europa — em 2010, o PIB per capita português correspondia a 59,9 % do da zona Euro, ao passo que em 2001 fora de 61,0 %. O problema é que, em 2014, passou para 56,8 %.

Conclusão: em 2011, o iluminado Álvaro demonstrou em oito indicadores económicos que o governo socialista deixava «um legado de tal forma terrível que vai marcar inexoravelmente as nossas vidas e as dos nossos filhos». Quatro anos depois, dos mesmos indicadores, um está em níveis idênticos aos de há quatro anos (taxa de desemprego), um melhorou significativamente (saldo da balança corrente) e seis pioraram consideravelmente (crescimento do PIB potencial, dívida pública, dívida externa bruta, dívida externa líquida, emigração forçada pelas circunstâncias económicas e divergência face à Europa). O Governo melhorou o saldo externo e piorou tudo o resto. Se o Álvaro tivesse um pingo de decência, chumbar-se-ia e ao Governo, sem apelo nem agravo. O «triste legado» é hoje muito mais triste e ainda mais pesado. Espera-se, parafraseando o Álvaro em 2011, que, quando os eleitores forem votar no dia 4 de Outubro, não se esqueçam dos verdadeiros factos desta governação.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original, publicado no jornal «Expresso» [1].

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