Por Alice Santos

Um dos nomes controversos da literatura portuguesa é Bocage — Manuel Maria de Barbosa l’Hedois du Bocage, de seu nome completo. Filho do juíz José Luís Soares de Barbosa e de D. Mariana Joaquina Xavier L’Hedois Lustoff du Bocage, nasceu em Setúbal a 15 de Setembro de 1765 e faleceu, com apenas quarenta anos, em 1805, no dia 21 de Dezembro.

Calcula-se que a sua infância foi infeliz, pois o seu pai, bacharel em direito, foi preso e apenas voltou à liberdade quando Bocage já tinha seis anos. A sua mãe, uma dama, segunda sobrinha da poetisa francesa madame Anne-Marie Le Page du Bocage, filha dum oficial da Marinha de Guerra Portuguesa, faleceu tinha ele dez anos.

Não se sabe muito sobre a sua vida e as biografias publicadas pouco esclarecem, no que toca a estudos, por exemplo. Podemos concluir, pela obra que deixou, que deve ter estudado as mitologias latina e grega, Francês e Latim e os chamados clássicos.

Diz-se ainda que um desgosto de amor o levou a assentar praça como voluntário no Exército, onde permaneceu de Setembro de 1781 a Setembro de 1783, tendo, nessa data, sido admitido na Escola da Marinha Real. Apesar de ter sido nomeado guarda-marinha por D. Maria I, desertou no final do curso. Por essa altura, já a sua fama de versejador e de poeta era conhecida por toda a cidade de Lisboa.

Rumou à Índia em 1786, mas acabou por chegar ao Brasil nesse mesmo ano. O amor à cidade foi tal que, no Dicionário de Curiosidades do Rio de Janeiro de A. Campos da Costa e Silva, na página 48, podemos ler:

Gostou tanto da cidade que, pretendendo permanecer definitivamente, dedicou ao vice-rei algumas poesias-canção cheias de bajulações, visando atingir seus objectivos. Sendo porém o vice-rei avesso a elogios, e admoestado com algumas rimas de baixo calão, que originaram a famosa frase: ‘quem tem c… tem medo, e eu também posso errar’, fê-lo prosseguir viagem para as Índias.

Em 28 de Outubro 1786, chegou, finalmente, à Índia, voltando a frequentar os estudos na Marinha. Contudo, volta a desertar, depois de ser colocado em Damão, embarcando para Macau em 1789. Há quem pense que a sua admiração por Camões o guiou até lá, com o propósito de calcorrear os locais por onde este andara e com o intuito de o imitar, mas, em simultâneo, por achar que ambos tinham sinas muito semelhantes. Essa admiração levou-a a escrever:

Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu quando os cotejo!
Igual causa nos fez perdendo o Tejo
Arrostar co sacrílego gigante:
Como tu, junto ao Ganges sussurrante
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante:
Ludíbrio, como tu, da sorte dura,
Meu fim demando ao Céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura:
Modelo meu tu és… Mas, ó tristeza!…
Se te imito nos transes da ventura,
Não te imito nos dons da natureza.

Consta que a vida de aventuras e boémia foi intensa na década seguinte, a par da produção literária. Segundo reza a história Bocage era um eterno enamorado, que dizia que «Nascemos para amar; a Humanidade / Vai, tarde ou cedo, aos laços da ternura. / Tu és doce atractivo, ó Formosura, / Que encanta, que seduz, que persuade» e usava vocábulos aparentemente contraditórios à sua fama de boémio, como por exemplo:

O ledo passarinho, que gorjeia
D’alma exprimindo a cândida ternura;
O rio transparente, que murmura,
E por entre pedrinhas serpenteia;

Era um amante fervoroso, a quem são atribuídas inúmeras paixões e, daí, o ciúme ser uma constante, conforme testemunham os versos:

Do escuro seio dos fados
Saltam males em cardume:
O pior é o que eu sofro,
A negra fúria Ciúme.

Talvez por ser um amante tantas vezes incompreendido, tenha escrito:

Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos
Deus, ó Deus!… quando a morte a luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.

A vida deste autor foi — e disso não há dúvidas — cheia de altos e baixos e, segundo parece indicar o soneto em que traça o seu retrato, não tinha uma auto-estima muito elevada, pois diz:

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;
Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno;

Quando regressou a Lisboa, aderiu à Academia das Belas Letras, ou Nova Arcádia, a convite, e adoptou o pseudónimo de Elmano Sadino. A sua veia satírica levou-o a escrever inúmeras sátiras, que lhe trouxeram muitos dissabores.

Foi, aliás, por ser «desordenado nos costumes» e por, alegadamente, escrever «Verdades duras», apelando à liberdade, satirizando a sociedade déspota em que se vivia, que Pina Manique, Intendente da Polícia em Lisboa, mandou prender Bocage no Limoeiro em Agosto de 1797, de onde saiu para o calabouço da Inquisição, no Rossio. Ficou aí até 17 de Fevereiro de 1798, tendo ido depois para o Real Hospício das Necessidades, dirigido pelos Padres Oratorianos de São Filipe de Neri, depois de uma breve passagem pelo Convento dos Beneditinos. Durante este longo período de detenção, Bocage mudou o seu comportamento e começou a trabalhar seriamente, como redactor e tradutor. Foi, aliás, na prisão que se dedicou a traduzir poetas franceses e latinos. Só saiu em liberdade no último dia de 1798.

Bocage chegou a escrever «Oh retrato da morte, oh noite amiga/Por cuja escuridão suspiro há tanto!» Após sair da prisão, viveu no Bairro Alto, onde faleceu, vítima de aneurisma.

A sua terra natal decretou feriado o dia de nascimento e mandou erguer uma estátua.

«O triunfo do amor», inspirado na obra do poeta, é um filme brasileiro que surgiu em 1997. Em 2006, a RTP produziu uma mini-série, protagonizada por Miguel Guilherme, onde conta a história de Bocage.

Da sua obra, sabe-se que a primeira edição de «Rimas» foi publicada em 1791, que escreveu «A morte de D. Ignez», «A pavorosa illusão», «A virtude laureada», «Elegia», «Improvisos de Bocage», «Mágoas amorosas de Elmano», «Queixumes do pastor Elmano contra a falsidade da pastora Urselina» e que traduziu «As plantas», «Os jardins ou a arte de aformosear as paisagens», etc…

Dedicou-se, ainda aos sonetos eróticos, sobre os quais pouco se fala, provavelmente devido à linguagem «demasiado expressiva e até pornográfica», como em «A água». Bocage ficou ainda conhecido pelas famosas anedotas, de cariz «apimentado», que usava para provocar as senhoras, mas a alta sociedade em particular. Quem nunca ouviu uma anedota de Bocage?!

Contudo, um dos seus poemas mais conhecidos é aquele em que questiona a sua própria vida, a sua passagem por este mundo e que intitulou Soneto Ditado na Agonia

Já Bocage não sou!… À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento…
Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura;

Conheço agora já quão vã figura,
Em prosa e verso fez meu louco intento:
Musa!… Tivera algum merecimento
Se um raio da razão seguisse pura.

Eu me arrependo; a língua quasi fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:

Outro Aretino fui… a santidade
Manchei!… Oh! Se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!

Anúncios