Por Carlos Lima

A importância dos neurotransmissores [1] na continuidade do impulso nervoso estimula-me a dar continuidade ao que já foi falado, lançando um olhar um pouco mais aprofundado sobre alguns deles, porque, através da compreensão da sua acção, fica mais fácil chegar a um entendimento sobre o sistema nervoso; sobre o impulso nervoso; sobre a transmissão sináptica [2]; e permite perceber a actuação dalguns medicamentos e doutras drogas (comportamentos de dependência) sobre o sistema nervoso.

Hoje vamos falar sobre a acetilcolina [3], que é sintetizada, a partir da colina, pela acetil-coenzima A. A colina é sintetizada no fígado e transportada para o neurónio, onde, por acção dalgumas enzimas, é transformada em acetilcolina e armazenada nas vesículas sinápticas. Quando um potencial de acção atinge um limiar de excitação, as vesículas rebentam e libertam a acetilcolina na fenda sináptica.

Os receptores para a acetilcolina são específicos, mas podem ser divididos em dois grandes grupos: receptores nicotínicos e muscarínicos.

Os receptores nicotínicos devem o seu nome ao facto de serem influenciados pela acção da nicotina e têm sempre uma acção excitatória.

Os receptores muscarínicos têm uma acção variável conforme a região do sistema nervoso onde se encontram e actuam.

A acetilcolina desempenha a sua acção sobre os receptores por breves instantes, sendo rapidamente degradada pela acção da enzima acetilcolinestérase. Da degradação da acetilcolina, grande parte da colina é aproveitada para reentrar no ciclo.

O sistema de transmissão do impulso nervoso que envolve a acetilcolina é chamado de colinérgico, precisamente por envolver a colina e as suas transformações, quer na formação da acetilcolina, quer na sua degradação.

A acetilcolina encontra-se presente no córtex cerebral e em todas as junções neuromusculares. A sua acção influencia o sistema cardiovascular, diminuindo o ritmo cardíaco, a força de contracção cardíaca e produz vasodilatação ou alargamento dos vasos sanguíneos.

Desempenha acção sobre os movimentos do aparelho digestivo, ou peristaltismo.

No cérebro, estimula a aprendizagem e a interpretação dos estímulos sensitivos, o que justifica a sua maior presença e actividade na criança.

O bloqueio e destruição dos receptores da acetilcolina conduz à miastenia grave, que se caracteriza por fadiga rápida e fraqueza muscular.

Existem diversas substâncias que apresentam grande afinidade pelos receptores da acetilcolina, levando à paralisia muscular, como são os casos dos venenos dalgumas cobras e aranhas [4]. O curare [5], que é utilizado pelos índios da Amazónia para paralisar as peças de caça, foi utilizado, durante muito tempo, na anestesia, para produzir relaxamento muscular e permitir alguns procedimentos médico-cirúrgicos. Os mariscos, nalgumas épocas do ano, desenvolvem toxinas que influenciam os receptores da acetilcolina [6]. A intoxicação por toxina botulínica [7], produzida pela bactéria Clostridium botulinum e presente nas conservas contaminadas, exerce acção sobre os receptores da acetilcolina na placa motora, a ligação entre o neurónio e o músculo.

A acetilcolina é o neurotransmissor mais abundante nos seres humanos e na maior parte dos animais. Ajuda à transmissão do impulso nervoso e à regulação de diversas funções do corpo. A diminuição da sua produção ou a inactivação dos seus receptores leva à paralisia muscular. O conhecimento sobre a sua acção permitiu o avanço da técnica anestésica, através dos relaxantes musculares, mas também faz parte do veneno e das toxinas dalguns animais, que podem ser fatais para os humanos, em caso de picada ou de intoxicação.

Saúde!

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