Por Jarrett Walker [a]

A Emily Badger tem um útil artigo sobre partilha ocasional de boleias (aquilo a que os norte-americanos chamam «casual carpool» ou «slugging»), embora pudesse ser um pouco mais útil se ela — ou os seus editores da Miller McCune — não dessem permanentemente a entender que o transporte público é dalgum modo o inimigo.

A partilha ocasional de boleia é uma resposta perfeitamente racional às auto-estradas muito congestionadas que têm vias reservadas a veículos com múltiplos ocupantes [2]. Em filas informais, geralmente localizadas perto dum acesso à auto-estrada, os condutores que pretendem usar as vias reservadas a veículos com múltiplos ocupantes encontram outros viajantes, que querem usar essas pistas como passageiros. Estes passageiros preenchem os lugares vazios no carro do condutor, de modo que todos eles podem viajar na via reservada a veículos com múltiplos ocupantes. O fenómeno parece surgir sempre que uma via reservada a veículos com múltiplos ocupantes oferece uma economia de tempo de viagem considerável, como sucede em determinadas autoestradas de Washington DC e na ponte da baía de São Francisco; e só acontece na hora de ponta, porque é quando a vantagem da via reservada a veículos com múltiplos ocupantes é substancial.

Para muitos, é divertido pensar nesta partilha ocasional de boleia como uma espécie de revolta contra o transporte colectivo convencional. O termo «slugging», explica a Emily Badger, surgiu como insulto, murmurado por motoristas de autocarro «amargos», que viam os seus passageiros a desaparecerem em carros particulares. A manchete da Miller McCune descreve a partilha ocasional de boleias como o «transporte colectivo do povo», como se o transporte colectivo convencional fosse outra coisa.

Na verdade, a partilha ocasional de boleias é amplamente compatível com o tranporte colectivo convencional. De facto, ambos são mutuamente benéficos. Os mercados de partilha ocasional de boleias em São Francisco e em Washington são ambos paralelos às linhas de transporte colectivo rápido, mas os comboios continuam a circular cheios. Quanto à concorrência com serviços de autocarros de hora de ponta, o longo serviço de sentido único de autocarros suburbanos é um dos serviços mais caros que qualquer agência de transporte colectivo pode operar. Muitas vezes, cada autocarro pode ser usado para apenas uma viagem durante cada hora de ponta, pelo que todos os custos de possuir e manter o autocarro têm de ser justificados por uma única viagem. Os condutores dos autocarros que prestam esse serviço também representam um custo avultado, porque há custos associados aos turnos curtos que tal serviço exige e porque os motoristas normalmente são pagos para voltar ao local onde começou o turno, antes de picar o ponto.

Os longos serviços de sentido único de autocarros suburbanos ainda podem fazer sentido, mas são muito caros, em comparação com o transporte colectivo convencional, de dois sentidos, que funciona durante todo o dia. Se a partilha ocasional de boleias reduzir a procura desse tipo de serviço, o efeito sobre o transporte colectivo é achatar o pico que este tem de servir à hora de ponta, aumentando o seu potencial de custo-efectividade e melhorando a utilização da frota. É especialmente útil na hora de ponta da manhã, que normalmente é o pico mais pronunciado do dia.

Então, força no «slugging», se realmente precisar de sentir que está a atacar alguma coisa. Eu prefiro chamar-lhe partilha ocasional de boleia, porque esse termo descreve de que realmente se trata esta novidade, e não vejo razão alguma para não abraçar a inovação. Na verdade, à medida que novas vias reservadas a veículos com múltiplos ocupantes forem construídas, o fenómeno de partilha ocasional de boleias deve ser planeado, garantindo que existem pontos de tomada de passageiros seguros e lógicas, e contando as viagens realizadas através da partilha ocasional de boleia nos benefícios de mobilidade da via reservada a veículos com múltiplos ocupantes.

Claro está, esse planeamento iria contradizer a fantasia libertária — fortemente sublinhada no artigo da Emily Badger — de que a partilha ocasional de boleias é uma forma de organização social espontânea, livre de intervenção governamental, uma espécie de Praça Tahrir do urbanismo em condomínio fechado. Na verdade, a partilha ocasional de boleias é uma resposta, resultante da liberdade de escolha, ao desenho da infraestrutura de transportes financiada pelo governo — exactamente como qualquer viagem, de qualquer pessoa, em qualquer lugar.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

Anúncios