Por Gustavo Martins-Coelho

Na última crónica [1], espero ter conseguido transmitir duas mensagens fundamentais: que dormir é importante para o nosso equilíbrio e para a nossa saúde; e que a falta de repouso adequado pode trazer consequências, tanto a curto como a longo prazo. Posto isto, vamos então hoje abordar o outro lado da moeda: as perturbações do sono, que afectam muitas pessoas e podem requerer intervenção médica.

A perturbação do sono que vem primeiro à mente é a insónia, que se caracteriza pela incapacidade de iniciar ou manter o sono. Mas pode também surgir de manhã, quando a pessoa acorda muito cedo e não consegue voltar a adormecer, até à hora do despertador tocar. As consequências da insónia são — claro — as mesmas da restrição de sono, que descrevi detalhadamente na última crónica [1]. A insónia pode ser causada por outras perturbações do sono, como efeito adverso de certos medicamentos, pelo abuso de drogas, por estados depressivos, ou por outras doenças orgânicas. Além destas causas, a insónia crónica pode ter também uma causa psicológica: o medo da insónia provoca insónia. Curiosamente, as pessoas com este tipo de insónia tendem a dormir melhor em camas que não a sua, vá lá saber-se porquê… Mas o tratamento é mais do que mudar de cama: há medicação para ajudar a adormecer e há técnicas para promover o sono regular.

Outra perturbação do sono é a narcolepsia. Esta doença caracteriza-se por sonolência excessiva durante o dia (incluindo momentos em que se adormece de forma inevitável), acompanhada de perdas súbitas de força muscular, muitas vezes consequentes a emoções fortes ou surpresas. Os episódios de narcolepsia podem ocorrer mesmo quando uma pessoa caminha ou realiza actividade física, o que pode ser hilariante, mas também perigoso. O tratamento passa por intervenções comportamentais e medicações estimulantes. As intervenções comportamentais destinam-se a minimizar o potencial da narcolepsia de interferir na vida diária do doente.

A síndroma das pernas inquietas tem um nome engraçado, mas não é de todo engraçada. Caracteriza-se por uma sensação de inquietude, proveniente das pernas, associada a desconforto de todo o membro inferior. Esta sensação dificulta o adormecer e a forma de aliviar é mover as pernas. O neurotransmissor dopamina tem sido implicado na síndroma das pernas inquietas, em vários estudos científicos, pelo que o tratamento inclui medicação destinada a corrigir as alterações da dopamina e a promover o adormecer.

A apneia do sono é considerada pela maioria das pessoas apenas um hábito irritante. Eu explico: ressonar é um dos sinais de apneia do sono. As pessoas com apneia do sono deixam de respirar durante alguns momentos, enquanto dormem, e depois fazem um ruído, quando recomeçam a respirar; concomitantemente, despertam, embora não se apercebam disso. Por consequência, as pessoas que sofrem de apneia do sono passam o dia também excessivamente sonolentas, porque o sono não é repousante, e isso traz as consequências de que já falei [1]. O tratamento da apneia do sono depende da causa. Pode ser preciso tratar a doença subjacente, tal como obstrução nasal ou insuficiência cardíaca; ou pode ser aplicada uma leve pressão ao ar inalado, através dum dispositivo apropriado para o efeito.

Para além destas perturbações do sono, há doenças crónicas associadas aos maus hábitos de sono. São elas a diabetes, as doenças cardiovasculares, a obesidade (particularmente nas crianças) e a depressão.

Então, a pergunta seguinte é: de quantas horas de sono precisamos diariamente? Varia ao longo da vida e de pessoa para pessoa. Na próxima crónica, vamos explorar esse assunto.

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