Por Carlos Lima

O futebol e os desportos com bola são estranhos para muitas pessoas, que questionam o interesse e a atracção que tanta gente sente, nos campos e frente aos ecrãs de televisão, por ver um conjunto de pessoas a correr atrás duma bola e a enfiá-la numa baliza, num cesto, ou noutro lugar qualquer definido como objectivo.

Quem nunca jogou não sabe e, por vezes, nem imagina a dificuldade que é controlar o atractivo esférico, que teima em ter vida própria e que invoca as mais apuradas capacidades físicas e mentais para o poder controlar durante uns escassos segundos, de cada vez.

Quem já jogou sabe que esses escassos segundos são um desafio permanente e que, à mais pequena distracção, é a bola que assume o comando que tanto desejamos ter. Penso que o sonho de qualquer jogador é formar com a bola uma união harmoniosa de grande cumplicidade.

Depois, surge a parte colectiva, em que uns têm com a «danada» uma muito melhor relação e conseguem cativá-la mais vezes, enquanto outros oferecem a capacidade física para confrontar e impedir que os adversários demonstrem esse conjunto de afinidades, dentro dum rectângulo, fazendo com que ele pareça enorme para uns e pequeno para outros.

Não é estanho este fascínio pela coisa esférica e pelas tentativas de a controlar, porque a generalidade dos animais também o demonstra, a maior parte das vezes de forma muito mais graciosa do que os humanos: não fossem eles tão individualistas e o espectáculo estava garantido.

Parece-me que esta atracção fatal pela bola é, na sua essência, uma atracção pelo movimento. A virtuosidade dos animais é inata e, logo, muito mais graciosa; já os humanos precisam de a treinar e, com o tempo, acrescentam a capacidade da partilha, através da noção que têm de si, do objecto e do outro (quer como colega, quer como adversário), à qual se junta a capacidade de persecução do objectivo do jogo.

Também na natureza, as pedras que rolam tendem a assumir, com o tempo, a forma esférica. Parece estranho, mas é o que acontece — basta olhar para a areia da praia, que quando seca, rola à vontade do vento. Dá que pensar esta forma esférica; até parece que Deus também se diverte a jogar.

Divagar sobre a bola, as capacidades humanas e outras coisas que tais leva-nos para a esfera do jogo com bola, onde a imprevisibilidade de cada momento sintoniza a atenção e o fascínio de cada um de nós, quer pela prática, quer pela admiração por aqueles que praticam, quer pela bola, que simboliza, na minha opinião, a perfeição do movimento e que a acção humana torna imperfeito. É a nossa sina…

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