Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Sempre que alguém entra por uma escola americana adentro com uma arma na mão e mata alunos e professores, o debate sobre o porte de armas renasce. A estatística coloca os EUA à frente de todas as outras nações, qualquer que seja o critério utilizado, incluindo na violência perpetrada pelo Estado, através da pena de morte. A violência é vista como um traço cultural dos EUA. Porém, existe uma ampla variação regional, que, para ser bem compreendida, requer a compreensão dos padrões de colonização dos EUA e as fissuras culturais que daí resultaram.

As colónias norte-americanas originais foram estabelecidas por pioneiros provenientes de regiões diferentes das ilhas britânicas, da França, dos Países Baixos e de Espanha — cada um com os seus próprios traços religiosos, políticos e etnográficos — e desenvolveram-se isoladas umas das outras, ou mesmo em competição e guerra. Os EUA nunca foram um país, mas antes várias nações distintas — mesmo hoje, persistem onze nações diferentes, cada uma com a sua própria visão sobre a violência e tudo o resto e com reflexos na cultura dominante, em termos de distribuição dos dialectos, dos artefactos culturais, das religiões e mesmo da inclinação política (o que não quer dizer que não haja, em cada nação, indivíduos com preferências muito diferentes).

O Domínio Ianque

Fundada na costa do Massachusetts por calvinistas radicais, o domínio ianque põe grande ênfase no aperfeiçoamento civilizacional, através da engenharia social e do primado do bem comum sobre a individualidade. A educação, o intelecto, a comunidade e a participação cívica são os valores fundamentais, o que os faz preferir a regulação e a intervenção governamental sobre as aspirações individuais dos aristocratas.

A Nova Holanda

Fundada pelos Holandeses, mantém a cultura comercial — materialista, tolerante e comprometida com a liberdade individual, de tal forma que sempre foi um pólo de atracção para imigrantes perseguidos — seja judeus, homossexuais, feministas ou boémios. Sem grandes preocupações morais, alia-se ao domínio ianque na defesa das instituições públicas e contra a religião como fonte de moral individual.

As Midlands

Fundada pela Sociedade dos Amigos britânica, que acreditava na bondade humana intrínseca, esta nação é plural e organizada em torno da classe média, vendo o governo como um intruso, apesar de secundar o domínio ianque na visão de que a sociedade se deve organizar em benefício do cidadão comum.

Tidewater

Fundada pelos descendentes da nobreza inglesa do Sul, a Tidewater foi concebida para reproduzir a sociedade quasi-feudal que haviam deixado para trás, substituindo os servos camponeses por empregados contratados e, mais tarde, escravos. O respeito pela autoridade e a tradição prevalecem sobre a igualdade ou a participação cívica. Foi a mais poderosa das nações americanas no século XVIII, mas hoje está em declínio.

A Greater Appalachia

Fundada pelos refugiados das guerras entre Irlandeses, Escoceses e Ingleses no princípio do século XVIII, transplantou uma cultura forjada pelo perigo constante, sendo pois caracterizada por uma ética guerreira e um apego à soberania e à liberdade individuais. Os seus habitantes desconfiam intensamente dos aristocratas e dos engenheiros sociais ianques, tendo-se associado ao Sul Profundo para contrariar as regras federais, quando estas se opõem às preferências locais.

O Sul Profundo

Herdeiro dos senhores dos engenhos ingleses, destinava-se a ser uma sociedade baseada na escravatura — uma versão do republicanismo clássico, à imagem dos antigos Estados da Antiguidade, onde a escravatura era o estado natural da maioria e a democracia o privilégio dalguns. Depois deste seu sistema de castas ter sido esmagado, continua a lutar contra a expansão dos poderes federais, os impostos sobre o capital e as políticas ambientais, de trabalho e de consumo.

El Norte

A mais antiga das nações norte-americanas, El Norte consiste no extremo do império espanhol e é visto como um local à parte, dominado pela língua, pela cultura e pelas normas sociais espanholas.

A Costa Esquerda

Esta nação, entalada entre o oceano e as montanhas, foi colonizada por mercadores, missionários e lenhadores ingleses, juntamente com camponeses, garimpeiros e caçadores dos Apalaches. Assim, conjuga traços da utopia ianque e do individualismo apalache.

O Faroeste

Esta nação foi desenhada mais pelos elementos do que pelas pessoas: composta de terras altas, secas e remotas, necessitou de forte industrialização para se tornar habitável. Por conseguinte, a colonização foi ditada por empresas com sedes em Nova Iorque, Boston, Chicago e São Francisco e pelo governo federal. O seu povo está ressentido, por ter sido usado como uma colónia interna das nações da costa Leste, tendo virado as baterias contra o governo federal, mas não as empresas.

A Nova França

Ocupando a região de Nova Orleães e o Sudeste do Canadá, a Nova França mistura as tradições do Antigo Regime francês com os valores dos aborígenes norte-americanos, tendo convertido uma opressão imperialista numa sociedade terra-a-terra, igualitária e que prima o consenso, liberal e tolerante, com forte aceitação da intervenção governamental.

A Primeira Nação

A Primeira Nação é habitada pelos nativos americanos que não cederam as suas terras e retiveram as suas tradições e o seu conhecimento. Actualmente, a Primeira Nação beneficia de larga autonomia, no limiar da independência.


Se entendermos os EUA como uma manta de retalhos de nações diferentes, não são de surpreender os diferentes pontos de vista, em relação à violência. De facto, os dados confirmam essa asserção: alguns regiões são mais violentas, mais tolerantes para como a violência e mais protectoras dos instrumentos de violência do que outras.

Consideremos as mortes violentas. No Domínio Ianque, na Nova Holanda e nas Midlands, a taxa de mortalidade por esta causa é pouco superior a 4 por 100.000. Já no Sul Profundo, na Tidewater e na Greater Appalachia, a taxa é de mais de 7 por 100.000. Decerto, ser negro é um factor de risco: a sua taxa de mortalidade é de 20 por 100.000, enquanto, entre os brancos, é inferior a 6 por 100.000. Mas não é a diferente composição étnica de região para região que explica a diferença observada anteriormente: analisando apenas a mortalidade entre brancos, as diferenças mantêm-se.

As leis stand-your-ground são outra linha divisória entre as nações norte-americanas. Estas leis conferem o direito a qualquer indivíduo a defender a sua posição, inclusivamente com força letal, se ele considerar que está a ser vítima duma ameaça ilegal. Dos 23 estados que têm este tipo de leis, apenas um — New Hampshire — faz parte do Domínio Ianque e outro — Illinois — fica nas Midlands, enquanto todos os estados do Sul Profundo e quase todos os do Faroeste e da Greater Appalachia aprovaram tais leis.

Um cisma semelhante acontece no debate sobre porte de armas. Numa sondage de 2011, os estados ianques defenderam as restrições ao porte de armas por 61 % contra 36 %, enquanto os do Sul Profundo e Greater Appalachia tiveram a resposta percentual exactamente oposta. No Faroeste, o direito ao porte de arma ganhou por 59 % contra 38 %. Mesmo no Senado dos EUA, em Abril de 2013, a votação duma lei mais restritiva sobre o tópico teve a seguinte votação: dois contra doze nos estados do Sul Profundo e onze contra um nos estados do Domínio Ianque.

O padrão da pena de morte é semelhante. Os estados do Sul Profundo, da Greater Appalachia, da Tidewater, e do Faroeste têm praticamente o monopólio da pena capital.

Por que é a violência entre indivíduos ou patrocinada pelo Estado mais prevalente nalgumas nações americanas do que noutras? Tudo depende de quem foram os colonos fundadores de cada uma: o Domínio Ianque, as Midlands e a Nova Holanda organizaram-se em torno duma economia agrícola, que premiava a cidadania cooperativa, enquanto a Tidewater e o Sul Profundo foram colonizados por nobres, herdeiros dos padrões medievais de honra e virtude, intensificada pela imigração escocesa e irlandesa subsequente, na Greater Appalachia. A economia baseada na pastorícia donde provinham estes imigrantes é propensa à violência, dada a necessidade de defender os animais de predadores e de ladrões. Mas não é só a pastorícia que promove a violência: no Sul Profundo e na Tidewater, esta era um meio necessário para controlar, punir e aterrorizar os escravos.

É também significativo que a tradição religiosa destas três nações — Sul Profundo, Tidewater e Greater Appalachia — sancione a justiça «olho por olho». O código do Domínio Ianque, pelo contrário, promove a dúvida e o auto-controlo. Foi aqui que se iniciou a abolição da pena de morte.

Com tais diferenças regionais, não é de esperar consenso em torno de assuntos relacionados com a violência. Mas é possível a construção de alianças que alterem o equilíbrio. Entre as onze nações, existem dois superpoderes — nações com a identidade, a força e a demografia capaz de modelar o debate: o Domínio Ianque e o Sul Profundo. Estas duas nações lutaram, ao longo dos últimos duzentos anos, pelo controlo do governo federal. O Sul Profundo aliou-se à Greater Appalachia e á Tidewater, sobretudo, e de forma mais ténue ao Faroeste. A sua agenda — cortar impostos, desregulamentar, reduzir serviços públicos e restringir os poderes federais — tem sido contrariada pelo bloco liderado pelo Domínio Ianque e que inclui a Nova Holanda e a Costa Esquerda. As outras nações, especialmente as Midlands e El Norte, frequentemente decidem as eleições, desempenhando, pois, um papel fundamental nos assuntos relacionados com a violência.

Por agora, o país continua dividido quanto à melhor forma de manter os seus cidadãos em segurança. Dum lado, o Sul Profundo prefere dissuadir pela força das armas e da pena de morte, enquanto o Domínio Ianque está determinado em trazer a paz através da restrição ao uso e porte de arma. A divisão persistirá, até que um dos lados consiga chegar às nações indecisas. Até lá, é de esperar a continuação da frustração e da divisão.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original, publicado na «Tufts Magazine» [1].

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