Por Gustavo Martins-Coelho

Como gosto de seguir os conselhos dos grandes estadistas (o Napoleão foi um grande estadista — isso é indiscutível, independentemente dos tiques ditatoriais e de ter feito a França ser massacrada em Waterloo) [1], dormi uma noite desassossegada antes de decidir se havia, ou não, de escrever. Ao acordar, decidi que sim. Esta é, sem dúvida, a hora certa.

Em boa verdade, dormir sobre o assunto não serviu de muito: o dia seguinte foi inesperado e, de certa forma, deitou por terra o resultado prático de toda a intenção de deixar passar uma noite napoleónica sobre os factos. Mas ficou a decisão e a certeza de que é agora.

Eu, que gosto tanto de Estatística, vejo a estatística virar-se contra mim. Nunca esbarrei nela, assim, sem querer, excepto quando perdi o meu pára-choques! Se soubesse que tão depressa voltaria a vê-la, teria guardado a verdade para mim. Sempre procurei separar as águas e, se não tive escrúpulos em me abrir até à alma naquela noite fatídica, foi porque acreditei que seria a última nossa e que dela sairíamos sem qualquer constrangimento. Nunca teria dito o que disse, se pudesse ter adivinhado que isso viria a ser a causa dalgum tipo de tristeza ou dor. Mais do que a reacção no momento, que não me surpreendeu de todo, chegou como um choque o que se lhe seguiu. Valorizo as palavras. Tomo-as por verdadeiras. Deixo-me enganar por elas. Isso consola-me da infelicidade que me causa.

Hodiernamente, o mundo resume-se a um pensamento no Facebook, ou a um tuíte. Uma mensagem estende-se, no telemóvel, por pouco mais de cem letras. Mas não cabe nesse espaço da praça pública moderna tudo o que poderia dizer, tudo o que quero dizer, tudo o que tenho de dizer! Mesmo agora, com páginas e páginas em branco à minha frente, é certo que muito — tanto! — ficará por dizer. Fica sempre tanto por dizer — nem sempre por esquecimento [2]! Decidi escrever depois de dormir sobre o assunto, mas não decidi o que escrever. A eterna busca da frase perfeita…

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