Por Gustavo Martins-Coelho [a]

O Governo nomeou quantos boys depois de estar em funções de gestão?

Recordemos o ano de 2013. O Nuno Crato nomeou a mulher para o Conselho Científico das Ciências Sociais e Humanidades da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), cargo não remunerado, é certo, mas de muito maio influência do que se pode julgar, na sua área científica, e uma importante promoção, para alguém com um currículo relativamente modesto. Mas, ainda que não fosse nada disto, um ministro não nomeia a sua mulher para um cargo público, remunerado ou não. Já nem é respeito pela ética republicana. É bom senso.

Em 2008, em pleno escândalo do BPN, o Rui Machete escreveu ao líder parlamentar do Bloco de Esquerda a informar que nunca tivera quaisquer ligações ao BPN, nem à SLN. Afinal, foi accionista da SLN e ganhou muito dinheiro à custa disso. O Rui Machete mentiu sobre o seu envolvimento, por pequeno que fosse, no mais grave escândalo financeiro a que este país assistiu e, no seu esclarecimento, toma-nos por parvos, dizendo que tinha acções do BPN, mas não da SLN. Tendo em conta que nunca existiram acções do BPN, mas apenas da SLN, faria pouco sentido escrever a um deputado para informar que não tinha acções que não existiam.

De volta a 2013, a Maria Luís Albuquerque foi apanhada em mais uma mentira. Primeiro, nunca tivera quaisquer contactos com swaps, enquanto andou pelo IGCP. Depois, afinal, já tinha autorizado um swap «com carácter de obrigatoriedade» e condições omissas. Uma nova versão da sua verdade inabalável, com o propósito de esconder as suas responsabilidades no caso dos swap. Contratar swap não é crime; o que é grave é que foi a Maria Luís Albuquerque que os usou como arma de arremesso contra o PS e acabou por ver o ataque fazer ricochete.

Nenhum dos três casos é, por si só, especialmente grave. Quando sabemos que o Dias Loureiro e o Oliveira Costa fizeram parte dum governo e que o Isaltino Morais ganhou umas eleições autárquicas depois de estar preso, nada parece grave. Mas, tudo junto e acrescentando o Miguel Relvas, retrata o estado de degradação moral a que chegámos. O problema é que este governo foi, desde o início, um morto-vivo em fim de ciclo, cada vez mais desacreditado, a gerir um dos mais importantes momentos da nossa História.

Cheira a fim de regime. E isso não é bom.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original, publicado no jornal «Expresso» [1].

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