Por Carlos Lima

A selecção portuguesa de futebol atinge a fase final do Euro 2016 [1]. Sucesso e ponto final.

O que me importa ressalvar aqui é o facto do sucesso assentar na ideia, por vezes pequena, de que aqueles jogadores são o ponto fundamental desse sucesso e que só eles o poderiam conseguir, porque são os melhores.

Não creio. Não creio que sejam os «únicos» melhores; não que duvide das competências técnicas, tácticas e morais dos seleccionadores, mas é público que jogadores não convocados em clubes ditos pequenos passam a convocados, se mudam para clubes ditos grandes. É uma questão de visibilidade.

Mas, por trás de cada jogador que chega à selecção estão centenas que podiam e mereciam chegar, mas não podem fazê-lo — porque quem treina a selecção tem de ter algum tipo de critério, goste-se ou não. Também por aqui, ponto, não quero ser mais um fazedor de opinião.

A humildade dos seleccionados (na maior parte dos casos) é para mim motivo de reflexão, porque creio que têm consciência de que são uns privilegiados (naturalmente cientes do mérito) e de que muitos outros poderiam estar nos seus lugares. Eles são seleccionados entre tantos que têm talento e sonham com o dia de vestir aquela camisola. Acredito na genuinidade do orgulho em vestir a camisola da selecção.

Outro aspecto é o sucesso, porque, quando uma selecção tem sucesso, reflecte anos de trabalho de base bem feito.

Podemos perguntar se «os magriços» [2] chegaram ao mundial por mero acaso? Carregados nas costas do Eusébio [3]?

Podemos questionar se Riade [4] e Lisboa [5] foram fruto do acaso? Resultado do trabalho de Carlos Queirós [6] e sua equipa?

Creio que o sucesso antigo e actual é fruto dum trabalho prolongado no tempo, por muita gente anónima, que permite aos seleccionadores nacionais terem «boas dores de cabeça».

Depois, existe no futebol um conjunto de oportunidades que a maior parte das outras profissões não permite: o acesso a uma bola é fácil, barato, não necessita de muito espaço e pode ser jogado em qualquer idade, com pequenas adaptações, a juntar ao fascínio que a bola provoca, através da incerteza do seu movimento.

Ao longo do tempo, vão existindo jogadores que mexem com o imaginário de quem começa a olhar para o futebol com um pouco mais de atenção. Casos como Eusébio, Chalana [7], Figo [8] e Ronaldo [8] são exemplos de «consequência da vontade», que faz convergir vontades de quem persegue o sonho.

A selecção é a ponta do iceberg da formação em Portugal. Uma formação que se massificou, mas que também se qualificou, ao ponto de «exportar» jogadores, treinadores e agentes desportivos. A selecção é uma referência maior que os clubes, pois esses são importadores, na maioria dos casos, mesmo que o negócio traga gente menos hábil do que aqueles que formamos.

Parabéns ao sucesso das selecções nacionais. Parabéns à formação em Portugal. Parabéns aos jogadores e treinadores que nos representam, porque são exemplo de motivação, de empreendedorismo e de determinação, para quem sonha com um dia representar a selecção nacional — e como isso é óptimo para quem trabalha para ajudar a formar jovens futebolistas!

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