Por Hugo Pinto de Abreu

Sou da (pequena) minoria que acredita que Cavaco Silva se prepara para completar o seu mandato como Presidente da República com um balanço claramente positivo, e voltarei a isso num próximo «Docendo Discimus» [1]. Hoje queria, sobretudo, procurar realçar a ideia-chave que o Presidente tem reiterado de forma insistente desde 2013: a necessidade imperiosa que temos de uma cultura de compromisso.

A campanha para as eleições legislativas mostrou à sociedade um tipo de ambiente e de prática políticos totalmente desfasados do contexto em que Portugal felizmente já se encontra há décadas: democrático e europeu. Uma pitoresca violência com o outro, com o que é ou pensa diferente, em que se identificam os socialistas como oportunistas e ladrões («xuxialistas», «o socialismo acaba quando acaba o dinheiro dos outros») e os apoiantes da coligação «Portugal à Frente» como mafiosos («pafiosos»); isto para não falar das inarráveis referências ao Secretário-Geral do Partido Socialista como «monhé».

Há uma certa maneira de entender o desporto em geral — e o futebol em particular —, que se caracteriza quer pelo apoio incondicional ao próprio clube quer pelo ódio aos clubes rivais e que, em virtude desse mesmo ódio, tudo justifica, desde agressões até ao vandalismo de postos de abastecimento de combustíveis.

Seguindo a política portuguesa, sinto-me insultado todos os dias. Da mesma forma que certos comentadores televisivos dos mil e um programas de debate desportivo analisam qualquer lance polémico em função do interesse da sua equipa, vemos agentes políticos que consideram ilegítima a solução em quadro parlamentar que o Partido Socialista está a procurar construir com os partidos à sua esquerda, quando sabemos bem que se estivessem na situação simétrica — e já estiveram [2] — estariam na linha da frente a defender com unhas e dentes a solução que tanto criticam. E vice-versa!

Inventa-se. Vale tudo. É a política-futebol. «Quem ganha, governa».

Perturba-me esta noção. Mas governa-se em função do «vencedor», ou em função do País? O «vencedor» tem «direito a governar»? Evidentemente, não neste contexto parlamentar e constitucional, onde quem governa é o povo, através dos seus representantes.

Mas na política-futebol ganha quem mete mais golos, desde que seja a minha equipa (doutra face, já não interessa). Ganha nem que seja por meio-a-zero. Ganha nem que seja com um golo com a mão em fora de jogo.

Desligo a televisão. Há limites para o desplante.

Post-Scriptum I

A realidade — e a desonestidade intelectual grosseira — ultrapassou todo e qualquer exagero da minha hipérbole:

Como dizia alguém muito a propósito: é o mesmo que retirar ao Benfica a vitória no campeonato porque a soma dos pontos das outras equipas é superior à dos encarnados. [3]

Post-Scriptum II

Sempre lúcido, José Ribeiro e Castro diz tudo o que eu gostaria de dizer:

A crescente teatralização da vida pública é um dos temas que temos tratado desde o lançamento do manifesto Por uma Democracia de Qualidade, há um ano. Como de novo ficou à vista nas eleições de 4 de Outubro, a ficção imposta pela propaganda degrada a representação política em sentido próprio e mina a credibilidade e o prestígio dos partidos, dos políticos, das próprias eleições. É um terrível factor de erosão da democracia.

O que está na génese da crise política que estamos a viver logo no arranque desta legislatura e da incredulidade na maioria dos comentários é essa mesma teatralização, a democracia de faz-de-conta.

As eleições foram travestidas de eleição do primeiro-ministro — que não são e nunca foram. [4]

Post-Scriptum III

A forma hostil como Cavaco Silva se referiu, na sua mensagem de 22 de Outubro, à possibilidade dum governo apoiado pelo BE e pela CDU merece-me as maiores reservas e parece-me contraditória com a cultura de compromisso que, a meu ver, Cavaco Silva tão bem vem apregoando. Aguardo pelos próximos episódios, esperando que esta situação não venha a desfazer o balanço positivo que, como disse, faço de Cavaco Silva enquanto Presidente da República.

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