Por Carlos Lima

Durante o século passado, os cientistas compreenderam que a actuação da morfina [1] obtinha uma resposta muito rápida do organismo e isso estimulou a investigação. Os receptores opióides foram, pelos anos sessenta, a grande descoberta. A existência desses receptores no corpo pressupunha que a substância, ou alguma similar, já era utilizada pelo organismo e chegou-se então ao conhecimento das endorfinas.

As endorfinas são neurotransmissores [2], produzidos pelos neurónios [3], que constituem o sistema opióide e que estão presentes na hipófise [4], no hipotálamo e no sistema nervoso central.

Tendo as endorfinas propriedades semelhantes às da morfina, têm grande importância no combate e no controlo da dor, mas também assumem um papel no bem-estar e no prazer [5].

No controlo da dor, têm uma actuação muito rápida, que permitia (primitivamente) e permite ao indivíduo entrar no binómio de lutar ou fugir, em caso de ameaça à vida. Existem relatos de pessoas que percorreram grandes distâncias com lesões corporais graves, sem sentirem dor. A medula espinhal é rica em receptores opióides, o que permite às endorfinas bloquear a transmissão da sensação dolorosa.

As endorfinas estão presentes e atingem picos durante a relação sexual, o trabalho de parto e a amamentação [6].

Durante o trabalho de parto, a mulher e o bebé produzem níveis elevados de endorfinas. Neste caso, desempenham três funções distintas: redução do estresse do trabalho de parto, função analgésica e função de bem-estar afectivo, que permite a ligação afectiva mãe–filho, assumida por um sorriso maravilhoso típico da mãe que acaba de parir e, no bebé, pela procura imediata da mama.

Esta sensação de bem-estar também está presente durante e após orgasmo, tendendo a manter os parceiros juntos numa atitude relaxante e de grande proximidade. As medicinas orientais recomendavam a relação sexual como forma de diminuir a dor da enxaqueca; estudos demonstraram que o efeito advém do elevado nível de endorfinas durante o orgasmo e do relaxamento produzido a seguir.

Na amamentação, parecem estar relacionadas com a afectividade criada e partilhada entre a mãe e o bebé, atingindo o pico mais alto cerca dos vinte minutos após o início da mamada, mas só a ideia de dar de mamar eleva os níveis de endorfinas. Estudos em animais permitem relacionar a presença de endorfinas com as competências maternais, ou seja, animais em que a produção de endorfinas foi inibida mostravam pouca apetência para cuidar das crias; já fêmeas que não tinham parido mostraram-se muito afectivas e cuidadoras de crias que não eram suas, após a administração de endorfinas. As endorfinas também são passadas para o bebé através do leite materno [7], pelo que os bebés amamentados a leite materno tendem a ser mais calmos, a adormecer mais facilmente e a ter menos cólicas, pois o intestino possui um elevado número de receptores opióides.

Como, no corpo humano, as substâncias existem em cadeia, regulando-se mutuamente, também as endorfinas dependem dum conjunto de outras substâncias para a sua libertação e a sua regulação. As hormonas produzidas pelas glândulas suprarrenais [8], em particular a adrenalina, regulam a actuação das endorfinas. Por sua vez, as endorfinas regulam um conjunto de outras hormonas.

O consumo de opiáceos [9] faz reduzir a produção das endorfinas, o que leva a uma menor resistência ao estresse e à dor, podendo também inibir a menstruação.

As endorfinas são um importante neurotransmissor, associado ao controlo da dor e da sensação de prazer; influenciam os comportamentos afectivos, interferem com o controlo do estresse e, em casos extremos, interferem com a capacidade reprodutiva.

A acupunctura [10] estimula a libertação de endorfinas, através da estimulação de pontos-chave do corpo.

Saúde!

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