Por Jarrett Walker [a]

Todos nós temos muito que ler, pelo que aqui vai uma dica para economizar tempo. Sempre que um artigo [2] cita informações sobre municípios como base de qualquer afirmação sobre tendências culturais, pare de ler. Os limites municipais, nas grandes cidades, são irrelevantes para a vida da maioria das pessoas e para qualquer outra coisa que interesse sobre a nossa cultura, a nossa economia, ou o nosso destino.

O Christopher Leinberger defendeu este ponto num artigo [3] do «New Republic» e a Sarah Goodyear elaborou sobre o tema [4] na «Grist». O Christopher Leinberger argumenta que «cidade» e «subúrbio» já não é uma distinção útil e que o que realmente importa são lugares urbanos onde se caminha e lugares suburbanos onde se conduz. É verdade, mas substituir «cidade» pelo quase sinónimo «urbano» não nos leva muito longe. «Cidade» e «subúrbio» são palavras ricas, evocativas e sucintas. A palavra cidade, em particular, deve ser defendida e redefinida de forma a defender a sua profunda herança cultural. A palavra tem uma linhagem antiga e clara do Latim, que forma a raiz da palavra «cidadão», para não mencionar «cívico» e «civilização».

A teoria política grega e romana centrava-se na cidade, num sentido da palavra que podemos reconhecer hoje: grupos de pessoas que vivem juntos num pequeno espaço, por razões de segurança e de economia, mas também o local de desenvolvimento cultural e intelectual da humanidade. «Cidade» é uma palavra de enorme poder evocativo, capturando uma série de ideias que criam o urbanismo. O Christopher Leinberger não consegue descrever verdadeiramente o seu objecto sem usar a palavra «urbano», que evoca uma história e uma ressonância similares.

O que o Christopher Leinberger critica são as discussões de dados sobre os municípios, que são um problema muito claro e específico. Algumas das mais antigas cidades dos Estados Unidos (São Francisco, São Luís) têm limites coerentes, que descrevem unidades culturais e demográficas reais, mas muitas são formas bizarras de interesse puramente histórico.

Ninguém que conheça a vida de Los Angeles pode afirmar que o município de Los Angeles é uma unidade demográfica útil ou interessante. Enquanto o município exclui uma grande quantidade de tecido denso do centro da cidade, junto ao centro, tem tentáculos que se estendem para Norte, incluindo o Vale de S. Fernando, e para Sul, até ao porto de S. Pedro; e contém também uma boa dose de terra semi-desértica, nas montanhas de Santa Mónica.

Esta bolha tentacular e esburacada, a que chamamos município de Los Angeles, é o mapa duma guerra antiga por água e poder. As únicas pessoas que se importam com ela, hoje em dia, são os que trabalham para o governo do município, ou são seus representantes eleitos, além dalguns que consideram os impostos e os serviços do município como motivo para se instalarem na cidade ou fora dela.

As fronteiras estranhas e enganosas dos municípios são, em grande parte, um fenómeno norte-americano. A Europa, a Austrália e a Nova Zelândia geralmente permitem aos governos centrais (regionais ou nacionais) desenhar os limites dos seus governos locais, de modo que estes limites geralmente (mas nem sempre) acabam por fazer algum tipo de sentido [b].

Como o Christopher Leinberger diz, precisamos duma distinção entre comunidades urbanas onde se caminha e comunidades suburbanas onde se conduz; e os limites dos municípios norte-americanos são inúteis para a compreensão dessa distinção. Mas a palavra «cidade» — cujo étimo latino significou «urbe onde se pode caminhar» durante milénios, até cerca de 1950 — ainda vale a pena. Os «limites municipais» norte-americanos são uma aproximação imperfeita do que as cidades realmente são, e o que elas realmente significa para o projecto humano. Apesar do seu uso indevido por pessoas como o Cox [5] e o Kotkin [6], os limites municipais não têm autoridade para nos dizer o que uma cidade é e por que devemos querer viver numa cidade ou não. A atracção e a repulsão profundas que nós sentimos em relação às grandes cidades são a chave para uma compreensão cultural mais duradoura e verdadeira do que as cidades são e de por que «cívico» é a raiz de «civilização».


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

b: Com excepção de Queensland, as áreas de governo local australianas são pequenas demais para ter muita influência, mas isso é um problema diferente (n. do A.).

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