Por Ana Raimundo Santos

Sim, confesso, fui ver o filme, quase quinze anos depois de ter lido o livro — e devo admitir que gostei! O filme não é particularmente excepcional, mas também não é a mediocridade que a crítica apregoa por aí, acima de tudo porque espelha uma realidade comum a todos nós: os afectos e o impacto que eles têm na vida de cada um.

Quem é que nunca sentiu o coração despedaçado? Quem é que nunca sentiu a alma desfeita? Quem é que nunca sofreu, ou fez sofrer, por amor? Quem é que nunca disse:

— Não acredito mais no amor?

Quem é que não voltou a apaixonar-se, a medo e com medo de sofrer? Quem é que nunca acreditou ter encontrado a pessoa certa e, no fim, percebeu que se enganou?

Duma forma ou doutra, todos passamos pelo mesmo. E nós, os trintões encalhados do presente, somos o exemplo disso! Estamos estragados de tanta dinamite que já deixamos entrar no nosso coração, mas somos felizes porque, dê por onde der, vamos acreditando que, um dia, ainda vamos voltar a amar e ter a oportunidade de vir a ser felizes.

Mas de quem depende isso? De nós? Da vida?

Tenho para mim que de ambos! Porque a vida não pode fazer tudo por nós! Ela até pode colocar no nosso caminho alguém que tem potencial para nos fazer felizes, mas a escolha de darmos a oportunidade a essa pessoa e ao que de bom temos para dar e receber é nossa.

E foi este ponto, em que o filme entronca com a vida real, que me deixou a pensar: só é possível seguir em frente, se deixarmos de viver no passado. A verdade é que partir o coração é demasiado doloroso e demora algum tempo até que ele volte a conseguir juntar todos os seus pedaços, novamente. No entanto, quantos de nós não dificultamos este processo?

É mais fácil viver e responsabilizar o passado do que arriscar e voltar a tentar viver no presente, com aquilo que de bom a vida coloca no nosso caminho.

Viver no passado é, de facto, mais fácil e mais seguro, mas menos feliz e muito mais doloroso. Como tão bem escreveu o O’Neill, «a vida é para ser vivida, mas se não for é mais segura». A verdade é que, enquanto for essa a nossa postura e viver o passado for a nossa primeira opção, não vamos conseguir ter uma hipótese de tentarmos ser felizes.

Nesta escolha masoquista pelo passado, tendemos a esquecer-nos das razões fundamentais que fizeram com que aquela realidade deixasse de ser o presente e a perspectiva do futuro e passasse a ser o que é — apenas passado. Recordá-lo, viver preso a ele, é fácil, porque a memória é selectiva e traiçoeira e, com o tempo, tendemos a lembrar apenas as coisas boas. Esquecemos, como se de magia se tratasse, o que foi mau e todos os motivos que nos levaram a decidir que aquele não era o caminho que queríamos para a nossa vida. Enquanto a opção for esquecer a parte má do passado, o mundo avança, mas nós não; e vamo-nos, de forma cada vez mais sólida e endurecida, tornando espectadores da nossa própria existência.

A história da Madalena é feita de coração partido, de alma desfeita e de muito masoquismo. Ela escolhe viver presa a um homem que desapareceu dum dia para o outro, mergulhando na solidão e na tristeza dos amores perdidos. Mas a vida, ainda que por motivos encobertos, oferece-lhe um presente chamado Francisco — um homem imperfeito, mas com uma vontade imensa de apagar o passado doloroso e de voltar a fazer a Madalena sorrir. Mas como tentar ser feliz é assustador, a Madalena foge e acaba por voltar ao passado, que lhe entra de rompante pela casa e pela vida e no qual ela se perde durante algum tempo. Felizmente, acaba por perceber, ainda que não da melhor forma, que o passado é um buraco negro e que o presente que se perfila à sua frente pode ser o caminho da felicidade. Mas, na vida real, nem sempre é assim; e muitas vezes atiramos a felicidade pela janela, sem lhe darmos uma verdadeira oportunidade de nos mostrar que podemos voltar a senti-la.

Claro que não podemos ter ilusões — a felicidade é um estado, não uma forma de vida. Mas são os momentos de felicidade que vamos tendo que tornam a nossa vida feliz; e é mais fácil alcançar esse estado acompanhado do que sozinho.

Todos nós já tivemos um Francisco na vida, todos já fomos o Francisco da vida de alguém e, na qualidade de Francisco, já lutámos, já demos o que podíamos e não podíamos, até ao dia em que largámos a armadura, entregámos as armas e desistimos de lutar, tal como o Francisco fez. Porque a verdadeira prova de afecto é deixarmos ir quem amamos, por mais que isso nos custe o próprio coração.

Todos já estivemos na pele da Madalena e muitos de nós gostávamos de conseguir ser um pouco como a Luísa.

O que nos salva, no meio deste turbilhão de emoções? Os amigos! Esses heróis que nos apoiam incondicionalmente, que apanham os pedaços do nosso coração partido e que nos dão abraços capazes de refazer a alma!

Salvam-nos os amigos e salvamo-nos nós quando, num momento de lucidez, olhamos para o Francisco da nossa vida e pensamos:

— Por que raio não tento ser feliz outra vez?

A resposta poderia muito bem ser o título do filme:

— Sei lá!

A minha resposta? Guardo para mim.

Acredito cada vez mais que, na vida, tudo acontece quando e como deve acontecer. E é por isso que, depois de ver o «Sei lá», sinto sedimentar em mim a certeza de que, um dia, chego lá!

O «Sei lá» não é um filme excepcional, mas é um filme de excepção, onde os afectos são protagonistas em toda a sua plenitude e a amizade é retratada como a mais plena e bela forma de amor!

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