Por Sara Teotónio Dinis

Lá vai um tempo largo desde a última publicação [1]… Pela ausência prolongada, seguem as minhas desculpas, ao leitor e a esta casa, a (nossa) «Rua da Constituição» [2].

O «Olho Clínico» [3] vem hoje confessar-se a quem o lê — a apneia [4] de que tem vindo mais ou menos a padecer tomou proporções nunca antes vistas.

Jamais este cérebro tinha padecido de um mal desta dimensão! A apneia mental verifica-se em resposta ao volume de trabalho e de tarefas pós-laborais e a uma exaustão emocional, provocada por algumas circunstâncias da vida.

A apneia mental surge em resposta a esta sobrecarga e tem-se verificado maioritariamente a nível literário. As letras têm sido um factor a evitar por este cérebro fatigado, quer as com que se depara já impressas, quer as que traduzem pensamentos e ideias produzidos a nível cortical e que poderiam ser transcritas formando frases e, ultimamente, crónicas.

Não se trata propriamente de um vazio criativo porque, de facto, é até em alturas de maior desgaste mental que no meu cérebro se instala uma taquipsiquia anómala, mas altamente produtiva, em termos de conteúdos profissionais. Trata-se de uma aversão quase inconsciente à simples visão dos caracteres, de tal forma que nunca na minha vida pensei ter tanta fome de horizonte.

Tanta fome do infinito do céu que está sempre ali à mão de semear, mas que me esqueço de sair para ver. Nunca pensei que fosse tão difícil poder ver a abóbada celeste… Mas em casa há um tecto, de casa ao trabalho um tejadilho e no trabalho mais um tecto. As varandas e as janelas não têm vista e diz-se por aí que, enquanto se conduz uma viatura, não convém muito apreciar devidamente a paisagem, sob pena de paragem abrupta e forçada (que pode ser bem violenta).

Nestas alturas, escusado será dizer que se torna completamente impossível praticar a atenção plena, método de meditação que os entendidos defendem como ferramenta altamente eficaz para a gestão do stress e a evicção do tão badalado burnout.

Mas então, se surgem assim tantas ideias nesta mente perturbada, por que é que não se traduzem num maior volume de crónicas a partilhar com os leitores do «Olho Clínico» [3]? Tão simplesmente pelo cansaço e tempo que me consome passar uma ideia para o «papel», com pés e cabeça, lucidez e coerência — quando o tempo é esse recurso precioso que mais me escasseia e mais me faz falta e quando tudo o que o meu corpo pede quando regresso a casa é comida, banho e cama. Horizonte só em sonhos — se calhar.

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