Por Carlos Lima

A substância P (SP) [1] é um neurotransmissor [2] e um neuromodulador. Produzida pelos neurónios [3] e por algumas células do sistema imunitário [4], actua sobre o receptor da neurocinina-1 (NK-1R) e é degradada após a actuação nesse receptor.

Desempenha diversas funções:

  • Regula a resposta à dor [5] — os nociceptores, ou receptores da dor, desempenham um papel activo na protecção dos tecidos onde existe a agressão, quer pela reacção imediata de afastamento ou fuga (queimadura, por exemplo), quer estimulando a busca de ajuda médica. A SP está presente nos neurónios aferentes, ou seja, que conduzem os estímulos até à medula espinhal, e na própria medula espinhal, para conduzir os estímulos para serem interpretados no cérebro [6]. Este mecanismo de actuação é importante nas estratégias de combate à dor, pois permite a actuação sobre a libertação da SP e a redução ou eliminação da dor, como é o caso da analgesia, no parto.
  • Regula a resposta inflamatória [7] — a SP favorece a reacção inflamatória (calor, rubor, dor e edema ou inchaço), de modo a delimitar o local da lesão, permitindo a chegada de mais sangue ao local e de agentes para combater a agressão e as suas consequências. A dor estimula o indivíduo a ficar parado, dando tempo para uma melhor recuperação. A acção do sistema nervoso na inflamação deve-se essencialmente à libertação de SP.
  • Regula o vómito — como a SP está presente na mucosa gástrica e na intestinal, promovendo a libertação de mucos e contribuindo para a regulação dos movimentos gástrico e intestinal (peristálticos), quando alguma coisa não está conforme, desencadeia-se o vómito, provocando contracções gástricas e abdominais, a fim de aumentar a pressão e inverter o sentido do trajecto dos alimentos.
  • Está envolvida na renovação das células dos tecidos em geral e do nervoso mais especificamente, ajudando na multiplicação celular.
  • Aparece no controlo da respiração — a respiração é regulada a nível central, mas tem controlo voluntário. Aparece associada aos caminhos da dor, razão pela qual temos tendência a suster a respiração em caso de dor, para saturar as vias da dor com informações complexas e reduzindo a sensibilidade álgica. Apenas resulta por um curto espaço de tempo e desencadeia a reacção de aumento respiratório como forma de fornecer mais oxigénio ao local da dor.
  • Favorece a vasodilatação, ou abertura dos vasos sanguíneos, para permitir a chegada de mais células do sistema imunitário ao local da lesão, nomeadamente os glóbulos brancos.

Também desencadeia algumas acções nefastas:

  • Nas lesões cerebrais traumáticas, aumenta o risco de edema cerebral, por activar ou potenciar a acção de alguns neurotransmissores.
  • Diminui a produção de insulina.
  • Quando há lesão nervosa, tende a aumentar a sensibilidade nos receptores pós-sinápticos, criando quadros de hipersensibilidade, como parece ser o caso da fibromialgia, e reacções alérgicas.
  • Os mecanismos com que favorece a renovação celular são, em algumas circunstâncias, postos ao serviço das células tumorais, através da oncogénese (formação de células tumorais), pois favorece a multiplicação celular do tumor, permite a criação de novos vasos sanguíneos, que vão fornecer grandes quantidades de sangue aos tumores, e aparece envolvida na migração de células tumorais para desenvolver metástases [8].

A substância P é um neurotransmissor que desempenha uma acção importante na detecção e controlo da dor, na renovação das células e no controlo dos processos de agressão interna ou externa através da reacção inflamatória. Os mecanismos com que faz toda essa regulação impedem o aparecimento de células cancerígenas, mas, quando estas se conseguem formar, aproveitam-no em seu serviço.

Saúde!

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