Por Carlos Lima

Não há vida sem correção, sem retificação. — Paulo Freire

Vejo, ao longo dos anos que levo de treinador de futebol na formação, que é usual os pais castigarem os filhos no futebol por insucesso escolar, por asneiras feitas em casa, ou mesmo por comportamentos inadequados noutras áreas da vida.

O sentido que pretendo dar a este texto é o da mera reflexão sobre esse tema, pois, na minha convicção, existem alguns equívocos nesta atitude que merecem essa reflexão.

Não sendo, na essência, a favor do castigo como processo educativo, vejo-o como um modo de mostrar aos educandos que o caminho não é bem por ali. Para mim, no papel de educador, também entendo que é preciso vincar a nossa posição, em coerência.

Gosto de educadores com convicções, cientes do rumo, ainda que gerido à medida da compreensão dos educadores e dos educandos, ou seja, adaptável em função da negociação.

Definida a minha posição, inicio a reflexão a que me propus.

É no futebol (entenda-se, no desporto em geral) que muitos jovens se sentem perfeitamente integrados. Têm sentido de pertença, vivências de grupo, partilham um conjunto de regras impostas pelo jogo, pelas equipas de trabalho (nas quais incluo os colegas) e pela interacção social. É no futebol que vivenciam tudo isto, duma forma mais completa, porque o fazem com gosto. Mas é também no futebol que muitos jovens conseguem gerir um conjunto de frustrações, como as dum dia mal conseguido, e conseguem estabelecer compromissos com objectivos e metas a atingir.

É no futebol, que, regra geral, se aprende a ganhar e a perder, a viver a felicidade colectiva e a gerir sentimentos diversos. Claro que existem muitos jovens que não jogam futebol e conseguem fazer essa gestão. Correcto; mas, por regra, os jovens andam no futebol porque gostam do jogo, e até mesmo porque precisam do jogo. É aqui que entram os castigos:

— Castigo-o no futebol, porque é do que ele mais gosta — e assim vejo o futebol como tudo aquilo que disse atrás.

Na essência, não estou contra o uso do futebol como castigo. Pensem comigo: o futebol é essencial para aquele jovem. O castigo daquele jovem é, muitas vezes, o castigo duma equipa, que não pode contar com ele. É retirar ao jovem uma das coisas que mais contribui para o seu equilíbrio. Certo?

Extremando posições — ninguém o tira da escola, porque se portou mal no futebol, concordam? Será porque a escola é vista como obrigatória? Será porque a escola é vista como um caminho para gerar competências para os saberes e para a vida?

Gosto da ideia de educação como construção em liberdade da autonomia e concordo com Filipe Rocha, quando este refere que a educação precisa dum «ambiente propício» e faz depender esse ambiente de diversos factores, entre os quais a autonomia, a relação afectiva e a congruência [1] .

Gosto da ideia de multidisciplinaridade e dos contributos de todos os ambientes e contextos para a educação, conceito tão bem traduzido pelo modelo ecológico de Bronfenbrenner [2] e pela ideia de Manuel Sérgio de «diálogo entre saberes» [3] .

Bebo em Vasconcelos Raposo [4] uma ideia de treinador que me coloca perante a pessoa que vive em constante experimentação, pela necessidade permanente da tomar decisões, pelo que «tem de ser um observador atento dos seus atletas e fazer uma avaliação de tudo o que envolve a preparação da sua equipa»

Socorri-me deste conjunto de opiniões de gente muito mais experimentada e estudiosa sobre o assunto do que eu, porque sempre tentei ser mais um no processo educativo dos jovens com quem tenho o prazer e o orgulho de trabalhar (no passado e no presente), pelo que quando vejo os pais, legitimamente, castigar os filhos, retirando-os temporária ou permanentemente do futebol, fico apreensivo.

Sem mais delongas, procuro-me nas palavras de Daniel Sampaio [5]: «para ser pai é preciso inventar-se a cada dia» e aceito como importante que os pais «funcionem com a intuição e experiência de vida», porque só assim puderam ser coerentes com os seus projectos de vida. Se castigar com o futebol e no futebol faz parte desse caminho, existam.

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