Por Carlos Lima

Ao longo de várias crónicas [1], falei de neurónios [2] e de neurotransmissores, descrevendo a sua acção. Naturalmente, esta individualização é uma maneira simplista de explicar algo que é interdependente e extremamente complexo. Todos nós sabemos a importância do sistema nervoso na regulação das actividades e das funções dos órgãos do corpo. Mas, se deixar a ideia da riqueza e complexidade do sistema nervoso é fácil, já entender e fazer entender como é que essa complexidade se transforma em conhecimento, aprendizagem, memória, emoções, etc., é outra realidade, bem mais difícil de traduzir.

Nesta área dos saberes científicos, existem ideias e teorias, mas nenhuma certeza. Sabe-se que determinada área do cérebro é activada na presença dalguns estímulos. Sabe-se que determinados neurotransmissores são libertados, as circunstâncias em que o são, mas não se sabe exactamente qual é a combinação que é precisa para que se memorize, para que se fale, etc. No dia-a-dia, fazemos as mais diversas actividades, memorizamos e aprendemos de forma tão natural, que parece que nem vale a pena o questionamento, ainda que a capacidade de questionar seja uma das habilidades do nosso cérebro.

A evolução da imagiologia, como foi o caso da tomografia axial computarizada (TAC) e da ressonância magnética, bem como da medicina nuclear, vieram trazer novas formas de «observar» a actividade cerebral e de mapear as áreas que são activadas por cada estímulo, mas ainda fica por esclarecer como é que o cérebro o faz.

Hoje consegue saber-se com precisão que áreas do cérebro estão em actividade, que neurónios estão a ser activados, quais os neurotransmissores que são libertados, as quantidades precisas para que exista impulso; mas continuamos sem ser capazes de explicar como se formam as emoções e os afectos.

Depois, é difícil entender as combinações necessárias para que determinados estímulos dêem origem a determinada interpretação ou emoção. Já temos o conhecimento da forma como captamos o mundo e como o corpo consegue transformar sinais químicos em eléctricos e vice-versa, mas continuamos sem perceber como determinados sinais se transformam em palavras e emoções — só para dar exemplos.

O estudo dos neurónios e dos neurotransmissores também nos permite compreender como determinadas doenças nos afectam e comprometem a nossa saúde e autonomia e como a falta ou excesso de determinados neurotransmissores influencia a forma como nos sentimos e relacionamos. Permite também a criação de determinados medicamentos que actuam nas diversas fases do processo de neurotransmissão, como a libertação dos neurotransmissores, a actuação sobre os receptores e a reabsorção ou transformação dos neurotransmissores.

— Emociono-me, logo existo — disse António Damásio. Esta frase mostra o quanto o nosso sistema nervoso é interessante e enigmático, mas é na interpretação e na emoção que ele nos torna fantasticamente humanos.

Saúde!

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