Por Diana Martins Correia

Ontem cruzei-me com o passado na rua e não fui capaz de outra coisa senão adormecer assim que ele me disse «vamos falando» e eu regressei a casa. Durmo para não perder em mim o pouco sossego que ainda — ainda — sou capaz de juntar nos dias em que não me lembro — não sei bem graças a que esquecimento — de que só falta tornares-te poema. Juntar fôlego como se fosse conforto dos dias claros. Só que ontem o céu esteve nebuloso e não colhi senão sombras vagas e irreconhecíveis como o resto do nome que ficou.

Hoje acordei antes do sol, com as mesmas sombras e o caderno aberto na página onde o poema espera para ser terminado, aquele que começa com o lado de dentro do que dói e não termina nunca. Aquele que comecei por escrever a medo e se tornou engano escrito a caneta preta permanente.

Talvez no futuro, o passado, esse arremesso da memória que teima em despedir-se de mim com um «vamos falando», passe a fazer sentido.

— Adeus, até ao dia em que nos cruzaremos outra vez na rua e tudo comece de novo — respondo eu.

Anúncios