Por Carlos Lima

Correr
Correr todos os dias
Ambicionar domar distâncias…

Pedro Guaxinim

Existe muita gente que gosta de correr, por desporto, por gosto, por saúde, para aliviar o estresse, para se manter activo e por muitas outras razões…

A corrida, ainda que possa ser partilhada, é por excelência uma actividade individual, que permite à pessoa uma estratégia de pensamento livre e relaxante.

Vejo muita gente que corre a ouvir música, duas actividades extremamente relaxantes e que funcionam como calmantes, pela sensação agradável que promovem. Mas não gosto de ver gente na estrada de auscultadores: por mais baixo que a música esteja, é sempre factor de desconcentração, porque o nosso ouvido [1], em conjunto com o nosso cérebro [2], faz a triagem, levando-nos a concentrar em sons específicos — o que, neste caso, remove grande parte da capacidade de ouvir os sons de alerta.

Vejo muita gente que substitui a corrida pela passadeira, mas aqui perde-se a riqueza do movimento e do som da natureza, que proporcionam ao cérebro momentos únicos de desatenção atenta, ou seja, desconcentra-nos dos focos interiores, pela imprevisibilidade, pela dinâmica de luz e sombra que nenhuma câmara capta tão bem quanto os nossos sentidos. Por mais que um ecrã ou janela à frente da passadeira nos dinamize e foque, o mundo de fundo é praticamente uma natureza morta.

Prefiro e defendo a rua na sua excelência, na alegria dos sons e dos movimentos; mas entendo que existam algumas condições em que a passadeira seja o melhor.

Outra ideia associada à corrida aparece nos trabalhos dos desportos em geral, como forma de ganhar resistência e de perder peso (só por isto já é castigo). Aceito algum tipo de corrida ligeira para iniciar o aquecimento e preparar o corpo e o cérebro para o exercício mais intenso, mas não vejo a necessidade de recorrer à corrida como estratégia principal para desenvolver a resistência — com crianças ainda menos!

Pessoalmente, prefiro o jogo como actividade lúdica e de formação nas crianças, como Rui Lança traduz na perfeição:

Talvez a característica mais especial do jogo seja a entrada num «mundo novo» que nos possibilita nunca morrer e entrar numa fantasia inventada por quem joga, desfrutar dos sentimentos de liberdade, ganhando por momentos uma nova vida.

Mas tirando isto, ou também por isto, ou somente por isto… correr é bom — mesmo que seja apenas… correr… correr… correr…

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