Por Jarrett Walker [a]

O leitor Danny vê o padrão subjacente [2] ao meu artigo sobre a dificuldade em descobrir a distância que as pessoas estão dispostas a percorrer até ao transporte colectivo [3].

Eu já encontrei análises como esta antes. Após a consideração dos factores psicológicos, das tendências demográficas, do comportamento de compra, dos custos de oportunidade e dos incentivos, o analista acaba com uma resposta que é tão complexa que nem vale a pena contar a alguém. E então tudo muda no mês seguinte e a análise torna-se inútil.

E, claro, toda a gente tem uma teoria suportada pela sua própria experiência como ser humano. E toda a gente tem as qualificações necessárias para dizer o que os faz optar entre um e outro padrão de uso. Infelizmente, temos a tendência a extrapolar as nossas próprias preferências para os outros, mesmo que raramente, na verdade, tenhamos as mesmas preferências que eles.

Os ensaios clínicos aleatorizados fazem maravilhas, mas, para que isso aconteça, as pessoas têm de estar abertas à possibilidade de que a sua teoria favorita esteja errada. Infelizmente, as pessoas raramente têm essa abertura… e, quando aceitam que a sua teoria está errada, só o fazem implicitamente, depois de serem forçadas a aceitar qualquer outra teoria, por pressão competitiva. É um triste estado de coisas.

Fico sempre impressionado pela forma como muitas vezes até mesmo pessoas altamente instruídas explicam o seu ponto de vista numa questão referente ao transporte colectivo relacionando-o com a sua própria experiência, como se toda a gente vivesse as coisas à sua maneira. Na noite passada, por exemplo, uma célebre professora de arquitectura disse-me que andaria de comboio, mas nunca de autocarro. Ela disse isto depois de enfatizar que não sabia nada sobre transporte colectivo, excepto o que ela experimenta enquanto cliente, o que, mais tarde, eu percebi ter sido, talvez, uma forma subconsciente de afirmar que ela fala em nome de todas as pessoas com o mesmo nível de experiência — claramente, a maioria das pessoas, na maioria das cidades.

Embora ela nunca tenha pretendido falar em nome doutrem, mas apenas no âmbito da sua própria experiência, ela presume ser parte dalgum consenso geral sobre esta questão, o que torna a sua experiência possivelmente relevante, como base para a definição de políticas públicas. Observando a maior parte dos debates sobre transporte colectivo, é sempre impressionante como rapidamente «eu nunca andaria de autocarro» se transforma numa afirmação não verificada de que «a maioria das pessoas nunca viaja de autocarro». A maior parte de nós quer sentir que está integrado na maioria, independentemente do quão invisível ou reprimida. Noutro ponto do mesmo espectro, também se ouve o mesmo padrão, «eu sinto x, logo a maioria das pessoas sente x», em afirmações de que o transporte colectivo é um desvio das necessidades das pessoas reais, porque as pessoas reais (como quem pronuncia a frase) querem conduzir carros.

Então, eu partilho todas as razões do leitor Danny, para declarar este um «triste estado de coisas». Ainda assim, todos nós saímos da cama, de manhã, apesar de tudo…


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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