Por Hélder Oliveira Coelho [a]

Era impossível não falar a respeito da situação actual. A rainha D. Maria I recebeu um Reino num mundo em mudança. Neta dum dos mais poderosos monarcas da Europa, num mundo em que o poder régio tinha uma componente mística, viveu a mais profunda transformação de valores que até então tinha ocorrido. A revolução francesa e a corrente revolucionária romântica, que ganhavam corpo em toda a Europa, não poupavam a realidade nacional. D. Maria, fragilizada pela perda prematura dum filho, muito provavelmente entrou numa profunda depressão, da qual já não saiu e à qual se atribui o epíteto histórico da loucura. Tivesse a D. Maria capacidade para renascer e veria que as verdadeiras mudanças estavam longe de acontecer.

Se é verdade que o parlamentarismo pouco demoraria a nascer, não é menos verdade que o país cinzento e obscuro que Portugal era não permitia que funcionasse. Quase dois séculos depois, não sabe a maioria da população (entretanto já alfabetizada) ao que vota ou em quem vota.

Para os pobres de espírito, ignorantes ou, usando um eufemismo, chamemos-lhes distraídos, que acreditam que o parlamentarismo é uma invenção da república, é importante lembrar que tal não é verdade. Pelas mãos de Garrett e Herculano se fez a primeira Constituição. A de hoje prevê que o parlamento sustente um governo. Assim deva acontecer. Não obstante esse facto «irrevogável», é importante lembrar que o povo merece ser respeitado. Portanto, ao novo governo cumpre garantir que não se cairá em pior lodo.

Por segunda onda, não posso deixar de salientar o golpe retrógrado que, em nome dum egocentrismo desmedido, pode pôr em causa a paz, a prosperidade e a posição estratégica dum povo. Falo, pois, da declaração unilateral de independência de Barcelona. Crê-se pois que a Europa, os Estados Unidos, as Nações Unidas e o mundo em geral reconhecerão maior legitimidade a Barcelona do que a Madrid? Não creio. A construção do reino de Espanha levou séculos a ser conseguida e a elevação a potência há muito que deixou de existir. Se algum papel quer reclamar para si na geoestratégia, não é por certo pela fragmentação territorial.

Dito isto, o assunto que verdadeiramente me assusta — a despersonificação do Homem. Este foi um tema que já abordei em diferentes momentos. Todavia, não me parece despropositado que se volte a erguê-lo.

A barbárie levada a cabo pelos indivíduos do Estado Islâmico, em todo o mundo, pouco tem de fenómeno religioso. É efectivamente aí que reside o problema, mas não é esse o problema. A sociedade ocidental permitiu-se o esvaziamento moral. Ademais, à palavra moral acrescem preconceitos tão negativos, que resolveu substituir-se toda e qualquer referência à moral pela ética pura. Como se apenas na ética residisse a condição de decisão do homem. Por oposição, surge um grupo de gente doente e perturbada, que faz uso da pobreza de espírito ou da decapitação moral, frutos do próprio capitalismo casado com o preconceito do jacobinismo republicano francês, e eis que surge uma nova realidade, ainda mais confusa do que a que poderia assolar a alma de D. Maria.

Urge uma resposta concertada de Estados e das Nações Unidas. Mas mais urge a resposta da sociedade. Pedagogos, sociólogos, filósofos, professores, professores de filosofia, psicólogos, juntem-se para preencher um vazio dos curricula das escolas. Morta que está a Educação Moral, por se associar a ela a componente religiosa, excomungada pelo Estado que se diz laico, há que introduzir em idades de colo, mal entrem na escola, uma disciplina em que a ética, os valores e uma moral sejam discutidas, para que o Homem volte a chamar a si as características que o fundam e o fazem pessoa.

Das muitas obras que poderia escolher, para encerrar esta crónica, ponderei o final do último andamento da nona, o «Hino à alegria», a obra monumental de elevação da humanidade de Beethoven. Ponderei o eterno «Imagine» do não menos sonhador Lennon. Pensei peças de Mozart, Tchaikovsky…

Optei por algo muito diferente. Porque estes tempos não têm paralelo. Porque não sei o que significam, mas sei o quão desestruturantes são da mensagem de paz, respeito, amor e tolerância cristãs e dos guias utópicos do romantismo revolucionário de igualdade, fraternidade e liberdade. Escutemos, de Chopin, a versão orquestral da «Marcha fúnebre» [2], com o pesar simbólico que odes de agregação não podem transportar, marcando um novo compasso para um mundo que dificilmente entenderemos e que, por consequência, balizará à Humanidade o mesmo cognome injusto que mereceu D. Maria I. A loucura não é um infortúnio do destino, antes a manifestação visível duma doença negligenciada, não diagnosticada e não tratada.


Nota:

a: Esta versão do texto foi revista e acrescentada para a «Rua da Constituição» [1], pelo que não corresponde na integra à versão radiodifundida, já disponível em podcast.

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