Por Gustavo Martins-Coelho [a]

A primeira crónica do Daniel Oliveira no «Expresso» era dedicada ao vazio ideológico e programático do futuro primeiro-ministro José Sócrates, vazio que foi sendo preenchido, à medida que este foi aprendendo, enquanto governava. Durante seis anos, o Daniel Oliveira foi oposição, com raros momentos de concordância, mas sempre com cuidado, em relação aos casos menos políticos em que o seu nome foi envolvido, para concluir, em 2010:

Interessa saber se José Sócrates fez o que se diz que ele fez. Mas, se não levarem a mal, a verdade dos factos pode, de vez enquanto, ter voto na matéria. [2]

É normal que se investiguem primeiros-ministros, sem que se trate de campanhas negras. Mas nunca recaíram sobre o mesmo governante tantas notícias de pequenos casos, de forma tão insistente. Compare-se o caso do Freeport — que durou anos — com o da Tecnoforma, que passou quase despercebido. Nunca um primeiro-ministro em Portugal foi tão atacado como o antigo primeiro-ministro José Sócrates.

Por que gera ele tanto ódio? Porque faliu o País? Não — e isto não é matéria de opinião. O Sócrates faliu o País tanto quanto todos os outros primeiros-ministros de países periféricos europeus entre 2008 e 2010. Até 2008, todos os indicadores financeiros do Estado, a começar pela dívida pública, e todos os indicadores da economia seguiam a trajectória negativa que vinha desde a entrada de Portugal no euro. A narrativa de que esta crise se deve ao governo socialista, além de esbarrar com todos os factos (o truque tem sido o de juntar o aumento da dívida anterior e posterior a 2008 e assim esconder a verdadeira natureza dessa dívida), esbarra com a evidência do que se passa nos países que estavam em situação semelhante à nossa e não tiveram o Sócrates como primeiro-ministro.

Também nada de fundamental, até 2008, distinguia, para o mal e para o bem, os governos do Sócrates dos anteriores. Em todos eles houve decisões financeiras desastrosas, interesses, tráficos de influências, mentiras, medidas demagógicas e eleitoralistas.

Uma parte do ódio surgiu a posteriori, pois o País precisava dum vilão para explicar a crise. O Sócrates serviu para muitas cortinas de fumo: a de quem quis esconder as suas próprias responsabilidades passadas; a de quem queria impor uma agenda ideológica radical; e a de quem foi incapaz de compreender a complexidade desta crise e optou por uma linha um pouco mais básica: o tiro ao Sócrates.

Outra explicação para este ódio é a agressividade das novas gerações da direita portuguesa, que levou à decapitação da direcção de Ferro Rodrigues e centrou, durante seis anos, a política nacional num debate quase exclusivamente em torno do carácter do primeiro-ministro, fazendo com que poucos se dessem ao trabalho de perceber o que estava a acontecer na Europa, desde 2008, e como isso viria a ser trágico para nós. A mesma direita que, em 2005, irritada pela iminência de perder prematuramente o poder que tinha reconquistado há apenas três anos, espalhou o boato sobre a suposta homossexualidade de Sócrates.

Goste-se ou não do estilo, a violência verbal do José Sócrates não é habitual em Portugal. Num País habituado a políticos redondos, isso choca, sobretudo quando se trata dum líder do centro-esquerda, por tradição cerimoniosa. A aspereza do discurso do Sócrates deixa a direita possuída, irritada, quase invejosa. E a maioria dos Portugueses tende a gostar dum estilo autoritário mas sonso, que nunca diz claramente ao que vem, como o Cavaco Silva. Já o José Sócrates corresponde, na sua imagem pública, ao oposto de tudo isto.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original, publicado no jornal «Expresso» [1].

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