Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Hoje em dia, há wifi em todo o lado. Até na Lua. Se Neil Armstrong tivesse chegado à Lua em 2013, em vez de falar sobre um pequeno passo para o homem e um grande passo para a humanidade, teria perguntado:

— Alguém sabe a pass da net?

Rede: «Moon28»; senha: «moonlight». Em vez de estudarem o satélite natural do nosso planeta, os astronautas iriam aceder ao Facebook, para dizer que «na Lua é que se está bem», com uma pegada em sépia, no Instagram. Ou uma selfie. Até acabar a bateria (ou o oxigénio), seria uma desbunda.

O wifi mudou a forma de se estar em muitos lugares. Como qualquer tasca tem wifi, as discussões, vinho e pataniscas deram lugar a likes e comentários; o jornal cheio de manchas de vinho deu lugar ao ecrã do telemóvel; a sueca e as damas foram substituídas pelo «Candy Crush»; e as discussões que acabavam à chapada passaram a decidir-se na Wikipédia. Nos cafés, multiplicaram-se as chávenas que aparecem no Instagram. Dos restaurantes, a comida passou ao Facebook. Imaginem o potencial do wifi em bordéis.

Por outro lado, o wifi permite àquele estúpido que inunda o café, todos os dias, com parvoíce compulsiva, comentar a publicação dum amigo a quilómetros de distância. O wifi permitiu à parvoíce chegar mais longe e a mais gente.

É mais grave não ter bateria do que ter deixado a carteira em casa. Não saber a senha é estar fora do clube. O wifi é a segunda invenção que mais ligações criou, entre as pessoas, sem que estas se tocassem. A primeira é a pornografia. Estamos dependentes e não nos vamos livrar do wifi.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original, publicado na «P3» [1].

Anúncios