Por Carlos Lima

Quando se fala na criação dum craque, o meu pensamento sintoniza-se nos longos anos que um jogador leva de evolução até atingir o estrelato. Mas hoje vou pensar e referir o craque jornalístico, aquele jovem jogador que, com base na benevolência e no voluntarismo jornalístico e na paixão, é idolatrado por ter tido uma oportuna ascensão às equipas principais dos clubes ditos grandes.

Dos adeptos, poderemos esperar paixão e pouca razão; já dos jornalistas espera-se rigor jornalístico perante a ocorrência de factos. Mas o que acontece habitualmente é uma tolerância exagerada perante os erros que esses jovens jogadores cometem e a colocação do ênfase na — ou nas — jogadas que saíram bem.

Um jogo ou dois servem para ver pormenores que a evolução promoveu naquele jogador, mas a criação do craque jornalístico parece-me muito curta e muitos são os casos em que estes craques se eclipsam com a mesma velocidade com que aparecem.

Podemos agarrar em dois ou três casos de idolatria jornalística:

  • Ruben Neves era conhecido nas camadas jovens do F.C. Porto e da selecção nacional, mas não idolatrado; chegou à primeira equipa e foi o que se viu — e até já é capitão de equipa!
  • Gelson Martins chegou à equipa do Sporting e dele se disseram maravilhas — já era jogador da selecção, nas camadas jovens, mas não idolatrado — chegou, marcou e virou estrela, passou por um período de esquecimento e está de novo nas bocas do mundo.
  • Renato Sanches era, até há pouco tempo, uma opção remota, apesar de fazer parte da equipa do Benfica que tão bom desempenho teve na Liga jovem UEFA e das selecções jovens, mas não idolatrado. Fez dois jogos pela equipa principal e já passou a «senhor oitenta milhões».

A verdade é que, chegados aos plantéis principais, poucos idealizariam a suas entradas nas equipas principais. Os treinadores, ao escolhê-los, foram apontados como correndo riscos excessivos. Feitas algumas coisas boas e esquecidas algumas coisas menos boas, todos apregoam que têm de jogar mais. Se não entram de início, começa-se logo a falar da necessidade de entrar e repete-se a ladainha vezes sem conta, acrescentando hipotéticos ganhos que, com eles, o jogo teria. Como só se olha para a parte boa, quando ainda se está em estado de graça, então os seus contributos só poderiam ser os melhores.

Apetece-me dizer que um pouco de prudência ficava bem, pois todos nos lembramos dos cinco minutos de fama do Pepa, mas se calhar não se vendiam euforias, esperanças e jornais e telejornais.

Apetece-me dizer:

— Prudência! — a treinadores e a dirigentes que vibram quando um jogador corresponde e vai mesmo além das expectativas num ou noutro jogo. É preciso manter os pés bem assentes no chão. Todos já ouvimos os agradecimentos públicos do Cristiano Ronaldo ao Alex Ferguson, pela importância que este teve para a carreira daquele; e estou certo que não foi exclusivamente por ter vindo buscá-lo ao Sporting.

Tenho grande simpatia por quem trabalha para chegar ao topo; já aqui [1] escrevi que são alguns, entre milhares que poderiam estar no lugar deles, sem problemas. Fico maravilhado quando essa posição de topo é fruto do bom trabalho de formação que se faz em Portugal, mas mantenho muita dificuldade em aceitar a ânsia que os transforma em alvos fáceis.

A exposição às luzes da ribalta gera pressão e exigência, mas é preciso tempo para se ganhar experiência e continuar a aprendizagem. Em Portugal vivemos um sonho chamado Eusébio e, durante muito tempo, sempre que um jogador despontava, era rotulado de «novo Eusébio». Agora, vive-se um sonho chamado Ronaldo e tudo o que desponta é um novo Ronaldo. Até seria interessante, se os jogadores apresentassem realmente as mesmas características, mas muitos são muito mais parecidos com o Figo, o Chalana, o Futre, o Rui Costa, o Paulo Sousa, o Rui Barros e tantos outros que deram nome ao futebol português, a treinadores e mesmo a dirigentes portugueses.

A memória jornalística e do público é mesmo assim: cavalgam a onda, precisam dum craque nos seus clubes e logo aparece alguém a explorar a galinha dos ovos de ouro, mesmo que seja preciso matar a galinha.

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