Por Alice Santos

José Egito de Oliveira Gonçalves nasceu em Matosinhos a 8 de Abril de 1920 e faleceu no Porto a 29 de Janeiro de 2001. Ficou conhecido por Egito Gonçalves.

Dedicou a sua vida aos livros. Foi poeta, editor e ainda tradutor.

Foi administrador duma editora. Em simultâneo, começou a publicar, tendo os seus primeiros livros «Poema para os companheiros da ilha» e «Um homem na neblina», ambos da colecção «Cítara», vindo a público em 1950.

Paralelamente à sua actividade intensa de editor e poeta, esteve na génese ou na direcção de diversas revistas literárias: «A serpente» (1951), «Árvore» (1951–1953), «Notícias do bloqueio» (1957–1961), «Plano» (1965–1968) e «Limiar».

Da sua vasta obra, apenas destaco alguns títulos: 1960 — «Memória de Setembro», edição Notícias do Bloqueio; 1962 — «Diário obsessivo», edição do autor; 1972 — «Sonhar a terra livre e insubmissa», com Luís Veiga Leitão e Papiniano Carlos; 1984 — «Notícias do bloqueio: algumas traduções», edição Associação de Jornalistas e Homens das Letras do Porto, edição Inova, colecção «Duas horas de leitura»; 1989 — «Dedikatoria», edição do autor, desenho de Ângelo de Sousa; 1991 — «O pêndulo afectivo, antologia 1950–1990», edição Afrontamento.

Das diversas obras que traduziu, destaca-se a «Selecção de poemas da Resistência chilena», que, em 1977, lhe valeu o Prémio de Tradução Calouste Gulbenkian, da Academia das Ciências de Lisboa.

Recebeu, ainda outros prémios: em 1985, o Prémio Internacional Nicola Vaptzarov, da União de Escritores Búlgaros; em 1995, o Prémio de Poesia do Pen Clube, o Prémio Eça de Queirós e o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, com o livro «E no entanto move-se».

Apesar de estar em constante actividade, ainda tinha tempo para se dedicar a outro dos seus interesses, o teatro. Foi, aliás, um dos fundadores do Teatro Experimental do Porto.

Numa entrevista concedida em 1990 à jornalista brasileira Denira Rosário, Egito Gonçalves deu a conhecer um pouco mais de si. Disse: «freqüentei um curso técnico, que não terminei pois não levaria nenhum proveito para a literatura. Ninguém me orientou leituras; sempre li muito, tudo o que me vinha à mão; Victor Hugo, Emilio Salgari, Julio Verne, Eça de Queirós foram certamente os primeiros autores que li. Quanto aos poetas, quase nada. Poemas avulsos de Guerra Junqueiro, Florbela Espanca, Antero e outros.» Acrescenta ainda que só quando foi para os Açores encontrou amigos cultos «com bibliotecas ótimas e atualizadas. A aprendizagem da escrita foi lenta, passando por numerosos autores; o segundo livro de poemas que li foi A Viagem, de Cecília Meireles, depois Drummond, Bandeira, mas penso que nenhum me influenciou profundamente: de todos tirei alguma coisa para conseguir encontrar-me. Em Drummond descobri que a ironia era possível e permitiu a liberdade a essa minha tendência.»

Relembra que na época fascista em que viveu grande parte da vida, «não se compadeciam com a arte pela arte, com a pura especulação estética». E quando a estética, a arte pela arte, foi substituída pelo humanismo, isso tornou-se num «momento importante de uma consciência intelectual necessária». Mas nunca se considerou «participante e muito menos militante de qualquer movimento».

Quando lhe perguntou se escrevia muito, a sua resposta foi deveras interessante… «Muito pouco — a safra de cada ano não ultrapassa a dúzia de poemas. Mas a quantidade nunca me preocupou. A qualidade, sim. Atingir um determinado nível estético e sobretudo não me transformar num ‘moinhos de oração’, num poeta que escreve — e publica — regularmente, repetindo-se a si mesmo, transformando a poesia numa fórmula.»

Realmente, a sua poesia não é uma fórmula. É bem viva e diferente em cada poema, como ficou patente ao longo de décadas dedicadas à escrita. Escrita essa que se encontra traduzida em Francês, Polaco, Búlgaro, Inglês, Turco, Romeno, Catalão e Castelhano.

«Entre mim e a minha morte há ainda um copo de crepúsculo», edição Campo das Letras, com prefácio de Manuel António Pina, só viu a luz do dia em 2006, cinco anos após a sua morte.

Sem me alongar mais, despeço-me «Com palavras»

Com palavras me ergo em cada dia!
Com palavras lavo, nas manhãs, o rosto
e saio para a rua.
Com palavras — inaudíveis — grito
para rasgar os risos que nos cercam.
Ah!, de palavras estamos todos cheios.
Possuímos arquivos, sabemo-las de cor
em quatro ou cinco línguas.
Tomamo-las à noite em comprimidos
para dormir o cansaço.
As palavras embrulham-se na língua.
As mais puras transformam-se, violáceas,
roxas de silêncio. De que servem
asfixiadas em saliva, prisioneiras?
Possuímos, das palavras, as mais belas;
as que seivam o amor, a liberdade…
Engulo-as perguntando-me se um dia
as poderei navegar; se alguma vez
dilatarei o pulmão que as encerra.
Atravessa-nos um rio de palavras:
Com elas eu me deito, me levanto,
e faltam-me palavras para contar…

Egito Gonçalves, in «Antologia poética»

Anúncios