Por Jarrett Walker [a]

Quando um artigo promete revelar os «dez melhores» sistemas de transporte colectivo [2], ou colégios, ou empresas, por que nos importamos? Por que sequer pensamos que esta lista possa ser significativa?

Bem, como reagiria o leitor, se uma importante revista de notícias publicasse a lista dos «dez melhores frutos»?

Imagine uma tal situação. Os frutos de sempre (maçã, laranja, uva) estão nas posições 3.º–5.º. Isto apenas confirma as nossas crenças de sempre o suficiente para dar credibilidade ao sistema de classificação. Mas a romã em rápida ascensão é agora o número 1, o pequeno arando malcriado é o número 2 e, mais escandaloso, alguns frutos muito conhecidos caíram para fora do top 10. Onde foi que a banana (21.º) errou?

A lista também contém algumas entradas destinadas a surpreendê-lo. O leitor há-de pensar:

— Uau! O quivi [3], pequeno e peludo, é agora um dos dez melhores frutos?! Como foi que isso aconteceu? É melhor eu comprar esta revista, para perceber o que se passa. Talvez os quivis mereçam um outro olhar.

Não, uma ideia destas seria descabida, porque quase qualquer um pode ver que «melhor fruto» é um termo sem sentido. O leitor poderia fazer uma lista dos frutos mais populares, dos mais doces, dos mais cultivados de forma sustentável, dos melhores frutos para vários tipos de nutrição, ou dos mais importantes para a economia das Ilhas Salomão. Mas uma lista dos «dez melhores frutos» seria um absurdo. Cada um de nós tem as suas exigências diferentes relativamente à fruta, mas estas exigências não são todas importantes da mesma forma, ao mesmo tempo. A maioria de nós não seria mesmo capaz de formar a sua própria definição absoluta de «melhor fruto», muito menos tentar levar alguém a concordar consigo. Na verdade, nós nem sequer tentaríamos uma tal ideia, porque esta é, pura e simplesmente, tola.

Então, por que olhamos duas vezes para uma lista dos dez melhores sistemas de transporte colectivo dos Estados Unidos? Por que é que uma grande revista acha que isso nos importa?

Bem, a analogia da fruta sugere que, quando falamos de sistemas de transporte colectivo (ou de faculdades), as pessoas ou assumem que todos têm a mesma ideia do que é um «bom» sistema de transporte colectivo, ou não querem pensar sobre o que elas mesmas querem do seu sistema de transporte colectivo.

Como em qualquer negócio, os jornalistas podem pensar que estão a responder aos desejos dos seus leitores, mas eles também estão ajudar a forjar esses desejos.

Se as listas dos «dez melhores» são sobre algo que é razoavelmente factual («dez sistemas de transporte colectivo mais fiáveis»; «dez sistemas de transporte colectivo mais seguros»; «dez sistemas de transporte colectivo com mais passageiros per capita»), então elas podem ser úteis. Elas podem encorajar a excelência e ajudar as pessoas a recompensar essa excelência com procura e investimento.

Mas, quando uma revista diz aos seus leitores que certos sistemas de transporte colectivo são «os melhores», sem explicar muito bem os seus critérios, então a mensagem que passa é que todos devem ter o mesmo sentido do que é bom. Isso incentiva as pessoas a entrar nos debates sobre o transporte colectivo como donos da verdade, assumindo que, se um operador de transporte colectivo não cumpre a sua noção de bom, esse operador deve ser incompetente ou estar a falhar, pelo que a única resposta válida é a agressão. Isso encoraja as pessoas a não notarem que «não fazer o que eu quero» é, muitas vezes, resultado de «fazer o que outrem quer».

Em suma, estas listas incentivam as pessoas a pensar como crianças de três anos de idade, para quem «as minhas necessidades» são ricas e gloriosas e evidentes para qualquer pessoa razoável, enquanto «as necessidades das outras pessoas» são abstracções vagas e enfadonhas. Isso, por sua vez, obriga os decisores a agir como pais que gerem as birras dos seus filhos. E então ficamos ofendidos, quando esses decisores nos parecem paternalistas [4]?


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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