Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Este comentário, tendo sido publicado no «Le Monde», diz principalmente respeito aos resultados franceses do PISA 2012 [2], mas começa por identificar uma tendência: a progressão fulgurante dos países asiáticos, que ocupam os primeiros lugares na Matemática; e confirma o sucesso das políticas de formação de professores e de combate ao insucesso escolar, que permitiram a um número crescente de países melhorar simultaneamente o seu desempenho global e reduzir a desigualdade social dos seus sistemas educativos.

A França, na Matemática, está na média da OCDE [3], mas pior do que em 2003, quando estava acima da média e era considerada um bom exemplo. Em relação às ciências, mantém-se na média desde 2006. Na compreensão escrita, está ligeiramente acima da média da OCDE [3], idêntico ao resultado de 2000, mas com um aumento da desigualdade entre os bons e os maus alunos. O sistema educativo francés é, portanto, «médio», mas cada vez mais desigual.

A distância entre os bons e os maus alunos acentuou-se nos últimos dez anos. Na compreensão escrita, existe uma desigualdade de género, a favor das raparigas, que se alargou entre 2000 e 2012. Por outro lado, pertencer a um meio desfavorecido é mais prejudicial ao desempenho escolar em França, do que na maioria dos restantes países da OCDE [3]; e esta desigualdade cresceu, desde 2003.

Pertencer a um meio social favorecido melhora o desempenho nos testes PISA em todos os países da OCDE [3], mais de forma mais intensa em França e tendo vindo a agravar-se desde 2003. Pertencer a um grupo socioeconómico superior é equivalente a ter estudado mais um ano. Além disso, os alunos mais desfavorecidos, além de terem pior desempenho, são menos envolvidos e ligados à escola, menos perseverantes e mais ansiosos do que aqueles de grupos mais favorecidos. Esta diferença é também mais marcada em França, do que no resto da OCDE [3], assinalando o fracasso das políticas educativas de apoio às escolas «problemáticas». Finalmente, a última desigualdade: os alunos imigrantes ou filhos de imigrantes têm maior risco em França do que no resto da OCDE [3] de ter dificuldades escolares, mesmo depois de ajustar para o diferente estatuto socioeconómico.

Estes resultados não são catastróficos, mas significam contudo que o sistema educativo francês serve a elite, não combate o insucesso escolar e está estagnado na média da OCDE [3] há anos, enquanto países como a Alemanha, a Estónia, a Itália, a Polónia e mesmo Portugal recuperaram o seu atraso e alguns inclusivamente ultrapassaram a França. Todos os países com desempenho superior à média ou com progressos importantes têm um ponto em comum: puseram em prática reformas eficazes e coerentes, destinadas a tornar os seus sistemas mais promotores da igualdade, sempre com o professor no centro do debate. Existem, portanto, exemplos de boas práticas, que podem ser seguidos. Um deles é a definição dum conjunto comum de competências e um investimento no ensino primário, para que todos os alunos obtenham as competências básicas. Outro são sistemas de tutoria, para acompanhar os jovens professores, e incentivos para que os professores mais experientes aceitem trabalhar nas escolas mais difíceis. Outros ainda são a busca de alternativas para a gestão do insucesso escolar e a formação profissional contínua, de modo que os professores possam evoluir ao longo da sua carreira. Algumas destas medidas estão a ser introduzidas ou discutidas, outras estão ausentes do debate. Contudo, são elas, em conjunto, que vão permitir à França melhorar o seu sistema educativo.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original, publicado no jornal «Le Monde» [1].

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