Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Os Países Baixos são avançados, no que diz respeito ao voluntariado, aos direitos humanos, à droga, à prostituição, ao casamento homossexual e à eutanásia, mas não tanto em relação à raça. Os Holandeses relegam subtilmente os afro-descendentes para uma cidadania de segunda — e relembram-nos disso todos os anos, pouco antes do Natal, através duma personagem chamada Zwarte Piet — Pedro, o negro —, que acompanha o Pai Natal holandês — Sinterklaas —, vestido como um menestrel renascentista, e distribui doces às crianças. A personagem, contudo, não está completa sem a peruca «afro», a tinta preta na cara, o sotaque estúpido e os gestos infantis. As canções infantis referem-se ao Zwarte Piet como o escravo do Sinterklaas, bem-intencionado, mas um pouco estúpido, trapalhão e infantil — as mesmas características apontadas aos africanos no passado e hoje proscritas, mas subtilmente transformadas em «tradição». Como o Sinterklaas é sempre branco, o Natal holandês faz-se dum homem branco e dos seus escravos negros, perpetuando o simbolismo da antiga relação entre senhor e servo e relembrando o papel dos Holandeses no comércio negreiro.

Historicamente, a mitologia europeia não tem sido amável para os negros e os judeus. No entanto, estes últimos deixaram de ser caricaturados, após a II Grande Guerra, e os primeiros também deixaram de ser representados como estúpidos, malvados e úteis apenas para serviços menores, devido aos protestos anti-racistas. No entanto, séculos de representações racistas ainda influenciam as mentes de muitos brancos (e pretos) e os estereótipos de africanos e afro-descendentes. Mesmo os contos de fadas permanecem pejados de referências racistas, que as crianças absorvem inconscientemente. Quanto aos Holandeses, mantêm o seu anacronismo, apenas tolerado, porque validado pela persistente discriminação racial.

Poucas pessoas, fora da Holanda, conhecem a figura do Zwarte Piet. Mesmo para os Holandeses, o racismo subjacente não é claro: esta figura é defendida como alguém «mourisco», que gosta de ajudar o seu amigo branco, sem conotações raciais. Porém, esta recusa em aceitar o óbvio é um sinal de que os afro-descendentes que vivem nos Países Baixos são tolerados, mas não aceites, e de falta de empatia entre a maioria branca, representada positivamente na cultura popular, e a minoria que foi historicamente escravizada, colonizada e discriminada e agora se vê arredada da sociedade mainstream.

Ao longo dos anos, contudo, um número ainda minoritário, mas crescente, de Holandeses — brancos e pretos — começaram a ver o emblema racista do passado colonial dos Países Baixos e a defender o abandono, ou a modificação, da personagem. Contudo, esta minoria tem visto os seus argumentos serem rebatidos com insultos, ameaças, ou relegados para o plano das ideias contra a tradição e vistos como uma imposição paternalista.

Sinterklaas e o Zwarte Piet: o mito e a lenda

A lenda do Sinterklaas baseia-se num bispo turco da Idade Média (pelo que não poderia ser branco), que foi canonizado após a sua morte. As suas relíquias foram depositadas em Espanha, pelo que se diz que ele vem desse país. Inicialmente, vinha acompanhado duma personagem que representava o diabo, mas, por isso mesmo, acabou por ser banido. No século XVIII, regressou, desta vez só; em 1850, foi-lhe acrescentado o escravo mourisco, com a farda das crianças escravas da época, traduzindo a concepção esclavagista e colonial desse tempo. Embora mouro, o Zwarte Piet é representado como africano: pele negra, carapinha e lábios vermelhos. Nessa altura, o império holandês espalhava-se por três continentes e prosperava graças ao tráfico e ao trabalho de escravos africanos; enquanto isso, os espectáculos com menestréis eram uma forma popular de entretenimento. Seja o Zwarte Piet mouro ou o diabo, é inegável que a sua representação é uma caricatura dos africanos.

Além disso, existe um contraste claro entre o Zwarte Piet, jovem, preto, pequeno, simples, turbulento e a pé, e o Sinterklaas, sábio, branco, grande e montado a cavalo: os Africanos como escravos irracionais, infantis e selvagens; os Europeus como amos racionais, responsáveis, civilizados e maduros.

Ao longo dos anos, os Holandeses tentaram racionalizar a personagem. O Zwarte Piet é preto, por ter descido pela chaminé, para levar os presentes — resta saber por que tem carapinha. A festa inclui africanos — mas não é agradável, para eles, serem confundidos com o Zwarte Piet pelas crianças. O Zwarte Piet não é africano, é mouro ou espanhol — então, donde lhe vem a carapinha e a cor da pele? As crianças adoram-no e nada há a fazer, quanto a isso — mas deixarão as crianças de gostar do Pedro, se ele mudar a cor da pele? As pessoas que celebram o Sinterklaas não são necessariamente racistas — mas é possível não ser racista e participar inadvertidamente num acto racista. É uma brincadeira inocente — então, por que se dirigem as crianças (e mesmo alguns adultos) a homens africanos e lhes chamam Zwarte Piet? A cor da pele não torna o Zwarte Piet uma caricatura racista — não é só a cor da pele, é o resto da caracterização e, sobretudo, o comportamento infantil e a atitude subserviente para com o Sinterklaas branco. É a tradição — mas as tradições não são mandamentos divinos imutáveis.

De facto, o argumento mais próximo da verdade é o da tradição: o Zwarte Piet conta a tradição colonial e esclavagista holandesa; Como muitas outras tradições que não acompanham os tempos, pode e deve ser retirada. Além disso, a tradição data de 1850, pelo que não é assim tão tradicional…


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original, publicado no boletim «This is Africa» [1].

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