Por Gustavo Martins-Coelho [a]

Zwarte Piet não é o único sinal de que os Holandeses têm um problema com a raça. Um outro sinal é a palavra «allochtoon». Esta palavra é usada, para se referir às pessoas (imigrantes ou nativos) de origem «não-ocidental», inclusivamente do ponto de vista legal, mas não aos imigrantes brancos. São estes allochtonen que são acusados pelo Geert Wilders [2] e outros políticos de extrema-direita de abusarem dos recursos do país e de recusarem integrar-se na sociedade. A palavra serve para lembrar aos não brancos que vivem nos Países Baixos a sua condição desigual na sociedade, negando-lhes a cidadania plena, mesmo quando esta é a única terra que conheceram. Os allochtonen são um quinto da população holandesa. São pessoas que vieram das antigas colónias, nos anos setenta do século passado, para trabalharem temporariamente nas fábricas holandesas, mas ficaram no país permanentemente, e imigrantes africanos vindos a partir da década de 1980. Os seus filhos e netos, nascidos nos Países Baixos, continuam a ser allochtoon.

Os holandeses brancos são os autochtoon. Estabelece-se, assim uma relação dual, na qual uma pessoa pode ter um passaporte holandês, sem que isso o torne holandês. Então, os efeitos da raça ficam escondidos do debate público, ao mesmo tempo que permitem excluir cidadãos da cidadania activa. Os Holandeses podem orgulhar-se da sua crença na igualdade de direitos independentemente da raça, do género, da orientação sexual, da religião, etc., ao mesmo tempo que mantêm várias estruturas psicológicas que promovem a discriminação. Paralelamente, quando os allochtonen aceitam não ser membros de pleno direito da sociedade, são acusados de recusarem a integração.

Assim, é fácil compreender por que a taxa de desemprego entre não brancos é mais do dobro da média nacional; ou por que os Holandeses vêm nada de errado com o filme «Alleen maar nette mensen» [«Só pessoas decentes»] [3]; ou ainda por que o editor duma revista holandesa de moda se atreve a definir o estilo da cantora Rihanna como «nigga bitch» [4].

A defesa do Zwarte Piet faz-se de diversas formas. Por um lado, a dissonância cognitiva: o cérebro recusa aceitar que a personagem é uma caricatura racista, porque esta entra em conflito com informação prévia: toda a gente o adora e ninguém é racista. Por outro, o direito dos Holandeses a fazerem o que muito bem lhes apetece, sem dar satisfações a terceiros. Mas, neste caso, os terceiros são também holandeses, pelo que um direito não pode sobrepor-se a outro. Essa sobreposição sugere um desequilíbrio de poder, em que um grupo se arroga o direito de ignorar as pessoas consideradas inferiores, cujos sentimentos e opiniões não contam, e o direito a retratar os outros de forma a influenciar a imaginação colectiva e a atribuir papéis sociais a determinados grupos.

A figura do Zwarte Piet, bem como o uso de palavras como «allochtoon» internalizam a superioridade do branco sobre o preto, esmagando este de forma simbólica, sem que ele sequer se aperceba desse esmagamento. Este debate é, pois, uma discussão sobre cidadania e identidade. É um debate destinado a identificar as situações em que as mesmas estratégias de marginalização são utilizadas. O servo negro e o amo branco não podem ser isolados do contexto social em que eles existem, nos Países Baixos.

O futuro

Este debate tem tido lugar anualmente, há bastante tempo, com o número de pessoas contra a tradição a aumentar de ano para ano; e os políticos começam a envolver-se no assunto, o que é meio caminho andado para fazer as coisas mudarem. Ainda assim, a maioria dos Holandeses não se considera racista e sente receio de que este debate termine com a abolição total da festa, que tanto apreciam, do Sinterklaas. Mas não deve ser esse o objectivo; apenas um debate nacional sobre a origem e a história do Zwarte Piet.


Nota:

a: Este artigo é um resumo do texto original, publicado no boletim «This is Africa» [1].

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