Por Diana Martins Correia

«Entre mim e a vida há um vidro ténue» de frio que me desperta de manhã à primeira respiração lúcida para que não me esqueça que, por enquanto, estou aqui e pertenço a este mundo.

Levanto o corpo a custo mas levanto-o, lavo a cara de restos de sono e preocupações nocturas e desembaraço-me do desalento que me adormece todas as noites. Não devo desperdiçar mais este dia — já perdi muitos outros entre insónias não dormidas e intenções derrotadas — que começou insubmisso à minha vontade. Continuo maquinalmente com o embalo de quem acorda pressagiando que o tempo não espera por ninguém e atravessa, absoluto e implacável, a vontade de quem sobrevive.

Aguardo todos os dias um dia melhor, sabendo que me demoro na única oportunidade que tenho. Mas é este desejar ingénuo de vir-a-ser o mesmo lado de cá de um vidro menos frio que me perpetua o fôlego aparentado de vontade, o vir-a-ser gente que se entrega por inteiro sem assombro de viver.

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